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Coluna. “Seu médico agora concorre com o TikTok”. Por Rodrigo Rocha

O problema é que acesso à informação não significa capacidade de interpretação. A ciência diz “depende”. O algoritmo diz “faça isso”. A medicina trabalha com probabilidade, contexto e incerteza

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito de Foto: Divulgação

O paciente já não chega ao consultório apenas com sintomas. Chega com hipóteses. Já assistiu a vídeos, ouviu podcasts, perguntou ao ChatGPT, leu relatos, segue médicos, nutricionistas, biohackers e influenciadores. Muitas vezes, já escolheu até o exame, suplemento ou tratamento que acredita precisar. Em alguns casos, o médico deixou de ser a primeira fonte de informação sobre saúde. Virou a segunda opinião da internet. E isso muda profundamente a medicina.

O problema é que acesso à informação não significa capacidade de interpretação. A ciência diz “depende”. O algoritmo diz “faça isso”. A medicina trabalha com probabilidade, contexto e incerteza. As redes premiam simplicidade, convicção e mensagens que prendem atenção. Por isso, o conteúdo que mais circula não é necessariamente o mais verdadeiro. É o mais compartilhável.

Mas simplesmente culpar as redes sociais é um erro. As pessoas estão pesquisando porque querem participar mais ativamente da própria saúde. Querem prevenir doenças, dormir melhor, melhorar performance, alimentação e longevidade. Isso é positivo. O problema é deixar o paciente sozinho para separar ciência, marketing, experiência pessoal e pseudociência dentro do mesmo feed.

Talvez, por isso, o médico do futuro precise assumir um novo papel: menos enciclopédia, mais curador. Não apenas diagnosticar e prescrever, mas ajudar o paciente a entender em quais informações vale a pena confiar. E isso exigirá uma competência que durante muito tempo foi subestimada na medicina: comunicação. Porque existe uma verdade desconfortável: se a ciência não aprender a disputar atenção, alguém menos qualificado ocupará esse espaço.

A inteligência artificial tornará tudo ainda mais complexo. Em breve, o paciente não chegará dizendo apenas “vi um vídeo”. Dirá: “Uma IA analisou meus exames, meu sono e meus dados e recomendou este protocolo.” Parece preciso. Mas existe uma diferença fundamental: personalização não é sinônimo de evidência.

Talvez, por isso, um dos ativos mais valiosos da saúde na próxima década não seja apenas tecnologia, dados ou inteligência artificial. Será confiança. Seu médico agora concorre com o TikTok. E autoridade, sozinha, já não basta. Confiança precisa ser conquistada.

RODRIGO ROCHA é sócio da Athlete, venture builder focada em investimentos em negócios disruptivos em saúde. O executivo é investidor, conselheiro, empreendedor e palestrante.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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