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Coluna. “MEMED, I wanna be a Unicorn.” Por Paulo Salerno

Paulo Salerno/Crédito de Foto: Divulgação
Paulo Salerno/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

O mercado de saúde digital no Brasil acompanha a ascensão de uma das suas plataformas mais promissoras, a Memed, que recentemente atraiu os olhares do ecossistema de inovação ao captar uma rodada de investimento de oitenta milhões de reais. Esse aporte financeiro tem um objetivo muito claro, que é acelerar o desenvolvimento e a implementação de inteligência artificial voltada para a prática médica.

Focada desde a sua fundação em substituir as receitas físicas em papel por documentos digitais inteligentes, a empresa conseguiu construir uma base sólida que hoje atende cerca de cento e cinquenta mil médicos ativos. Esse número impressiona porque representa aproximadamente um em cada três médicos em atuação no território brasileiro, permitindo à companhia processar cerca de dez por cento de todas as receitas geradas no mercado nacional.

Avaliada em seu último valuation na marca de trezentos milhões de reais, a startup demonstrou uma capacidade notável de multiplicação de valor, uma vez que o investimento inicial de trinta e três milhões de reais foi expandido por dez vezes. Embora ainda esteja distante do patamar de valuation necessário para alcançar o status oficial de unicórnio, o posicionamento estratégico, a robustez tecnológica e a vastidão do mercado endereçável colocam a empresa em uma trajetória realista para se tornar o próximo grande destaque bilionário entre as healthtechs brasileiras.

O potencial de expansão da Memed dentro do próprio território nacional é imenso, estimando-se que a empresa possa crescer até dez vezes apenas capturando a totalidade do mercado interno. Se conseguir se consolidar como a força absolutamente dominante em e-prescrições no Brasil, a plataforma elevará o seu faturamento de forma exponencial, impulsionada por um modelo de monetização que atrai cada vez mais a indústria farmacêutica.

Atualmente, parte relevante de sua receita provém de publicidade digital direcionada de forma ética para médicos e pacientes na jornada de prescrição. Ao observar o mercado norte-americano, nota-se que vinte por cento de toda a propaganda de medicamentos já está migrada para plataformas digitais equivalentes. Isso sinaliza um horizonte altamente lucrativo e ainda subexplorado no ecossistema brasileiro. O foco atual do desenvolvimento tecnológico está focado em criar soluções que auxiliem os médicos no acompanhamento contínuo dos pacientes, utilizando a inteligência artificial para prever interações medicamentosas perigosas, emitir alertas clínicos personalizados e otimizar a adesão aos tratamentos médicos.

Apesar de a estratégia de curto prazo estar estritamente concentrada na dominância do Brasil, o potencial global de longo prazo revela mercados massivos nos Estados Unidos e na Europa, embora cada um deles apresente desafios estruturais profundos.

Para tentar uma expansão rumo aos Estados Unidos, a healthtech brasileira precisaria enfrentar a Surescripts, que funciona como uma infraestrutura quase monopolista de dados de saúde no país, além da GoodRx, que conquistou a fidelidade do usuário americano ao conectar a prescrição com cupons de desconto agressivos em medicamentos. 

Na Europa, o desafio regulatório divide-se entre a forte presença de plataformas estatais e a concorrência de gigantes privadas como a Doctolib, a maior empresa de tecnologia em saúde do continente europeu, que ostenta um valuation de três bilhões e seiscentos milhões de dólares. A imensa diferença de tamanho serve como um forte indicador de que o mercado de prescrição eletrônica é viável e altamente escalável em escala global, validando o modelo de negócios escolhido pela liderança brasileira.

Diante da complexidade regulatória e do tamanho dos concorrentes nos mercados norte-americano e europeu, um caminho de internacionalização menos tortuoso e organicamente mais viável para a Memed seria a expansão para a América Latina. No cenário hispano-americano, a startup encontraria um ecossistema competitivo ainda em fase de amadurecimento, onde o principal rival privado de relevância é a Prescrypto no México, além das plataformas governamentais centralizadas que operam no Chile e na Argentina. 

O ponto forte da empresa brasileira para dominar o continente vizinho reside na maturidade de sua API e na flexibilidade técnica de seu ecossistema, que poderiam ser adaptadas para as agências regulatórias locais de maneira mais ágil do que as engessadas soluções americanas. Por outro lado, o ponto fraco dessa expansão reside na necessidade de reconstruir do zero as bases de dados de medicamentos nacionais de cada país e adaptar o sistema aos padrões locais de assinatura digital e privacidade. Independentemente de quando a internacionalização aconteça, os números provam que a consolidação definitiva no Brasil, impulsionada pelos novos algoritmos de inteligência artificial, já possui força financeira e mercadológica suficiente para transformar a empresa em uma referência absoluta de tecnologia em saúde na América Latina.

PAULO SALERNO fez cinema, foi fotógrafo profissional e é mestre em economia pela EPGE-RJ. Atualmente mora em Coimbra (Portugal) e trabalha com projetos de tokenização de ativos.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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