Pular para o conteúdo

Opinião

Artigo. “A gestão do risco oncológico começa antes do diagnóstico do câncer de mama.” Por Luiza Soeiro

Os planos de saúde aprenderam a medir quanto gastou e onde gastou, o que ainda precisa evoluir é a capacidade de usar essas informações para antecipar riscos

Luiza Soeiro, da Level/Ilustração de Saúde Insider
Luiza Soeiro, da Level/Ilustração de Saúde Insider Crédito de Foto: Divulgação

Quando discutimos o aumento dos custos da saúde suplementar, quase sempre olhamos para o preço dos tratamentos, a incorporação de novas tecnologias e a pressão sobre a sinistralidade. São questões relevantes, sem dúvida. Mas há uma pergunta que deveria ocupar um espaço muito maior nessa discussão: quanto custa não identificar uma paciente tardiamente?

No câncer de mama, essa resposta é especialmente preocupante. Um levantamento da Funcional, realizado com contas médicas de operadoras entre 2019 e 2024, envolvendo 15.994 pacientes, mostrou que o custo médio do tratamento em estágio inicial foi de R$ 41,4 mil, contra R$ 128,3 mil nos casos avançados. Estamos falando de uma diferença superior a R$ 86 mil por paciente. Embora cada caso tenha suas particularidades, os números deixam evidente que o momento do diagnóstico também é uma variável econômica relevante.

E essa discussão se torna ainda mais urgente diante do cenário epidemiológico. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), o Brasil deverá registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028. Ao mesmo tempo, dados do IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) mostram que a realização de mamografias convencionais e digitais por mil beneficiárias caiu 10,9% entre 2019 e 2024. É uma combinação que deveria acender um alerta para quem administra os recursos e os riscos do setor.

O que esses números revelam, na minha avaliação, é uma fragilidade que vai além do acesso aos exames. Ainda temos dificuldade para transformar informações disponíveis em decisões capazes de mudar a trajetória assistencial de uma paciente. E isso é particularmente contraditório em um setor que produz diariamente um volume expressivo de dados clínicos e administrativos.

Uma mulher pode realizar uma mamografia, apresentar um resultado suspeito e não avançar para a investigação necessária. Outra pode permanecer anos sem rastreamento, mesmo tendo indicação clínica para realizá-lo. Há ainda aquelas que recebem o diagnóstico, mas enfrentam atrasos até o início do tratamento. São situações distintas, mas que expõem o mesmo problema: a falta de continuidade e coordenação do cuidado.

É claro que nem todo diagnóstico tardio poderia ser evitado. Tampouco seria correto reduzir a complexidade do câncer a uma equação financeira. Mas ignorar o impacto econômico dessas falhas também significa deixar de enfrentar uma parte importante do problema.

Durante muito tempo, a gestão da sinistralidade foi conduzida principalmente a partir da análise das despesas já realizadas. O setor aprendeu a medir quanto gastou, onde gastou e quais procedimentos pressionaram os resultados. O que ainda precisa evoluir é a capacidade de usar essas informações para antecipar riscos e orientar intervenções antes que a situação se agrave.

Nesse contexto, a tecnologia pode fazer diferença, mas não simplesmente porque permite processar grandes volumes de dados. Seu valor está na capacidade de conectar informações, identificar pacientes que exigem atenção e apoiar decisões que tenham consequência prática na jornada assistencial. Na prática, isso quer dizer que a tecnologia já permite identificar, entre milhares de pacientes, quem apresenta sinais de risco e precisa de atenção, conectando esse achado a uma ação — como acompanhamento, investigação ou encaminhamento. Para o paciente, isso reduz atrasos e aumenta a chance de diagnóstico e cuidado no momento adequado. Para a saúde suplementar, significa antecipar intervenções, evitar agravamentos e procedimentos de maior complexidade e direcionar recursos para quem mais precisa, combinando melhores desfechos com maior eficiência assistencial. 

Essa mudança exige também uma revisão da própria lógica de gestão. O diagnóstico precoce e a coordenação do cuidado não deveriam ser tratados apenas como iniciativas assistenciais, desconectadas das estratégias financeiras. São dimensões da mesma decisão. Quanto mais organizada e resolutiva for a jornada da paciente, maiores serão as oportunidades de evitar agravamentos, melhorar os desfechos clínicos e reduzir desperdícios.

Isso não significa que investir em prevenção e detecção precoce produzirá, necessariamente, economia em todos os casos. Significa reconhecer que a eficiência financeira não pode ser perseguida à custa da qualidade assistencial e que as duas agendas precisam ser analisadas de forma integrada.

O câncer de mama evidencia uma questão que vale para diferentes condições de saúde: não basta conhecer o custo de uma doença. É preciso compreender como esse custo se forma, quais decisões influenciam sua evolução e em que momento ainda é possível agir.

Enquanto as operadoras concentrarem seus esforços apenas na administração das despesas que já aconteceram, continuarão olhando para uma parte limitada do problema. A verdadeira evolução da gestão estará na capacidade de identificar a paciente certa, no momento certo e, principalmente, tomar a decisão certa a partir dessa informação.

No fim, com um olhar mais analítico, podemos discutir o quanto ainda estamos deixando de fazer antes que o tratamento se torne mais complexo, mais caro e, sobretudo, mais difícil para a paciente. Entender a jornada e identificar como é possível agir, no momento certo, tem impacto direto nos resultados, tanto para quem está sendo cuidado quanto para a sustentabilidade do sistema de saúde. 

LUIZA SOEIRO é diretora de produtos em saúde da Level

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

Mais lidas

Mais em Opinião