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Opinião

Artigo. “A ineficiência da saúde brasileira se mede em vidas.” Por Silvio Frison

"Existe uma pergunta desconfortável: quanto é preciso gastar para entregar a alguém um ano a mais de vida com saúde? No Brasil, a resposta é US$ 8,4 mil"

Silvio Frison, da Rivio/Crédito de Foto: Divulgação
Silvio Frison, da Rivio/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Quando um paciente morre por erro médico, existe um prontuário, uma comissão de análise, às vezes um processo. Quando um paciente morre porque o hospital adiou por dois anos a compra do equipamento que o salvaria, não existe registro nenhum. Ninguém preenche formulário para a segunda morte. Ela acontece meses depois, em outro andar, com outro nome, e ninguém liga uma coisa à outra. Só que ela é tão real quanto a primeira.

Passei minha carreira em tecnologia e dados antes de escolher trabalhar com hospitais. Quando me perguntam por que um fundador de tech foi parar na saúde, eu costumava responder com uma história. Hoje respondo com uma conta.

Existe uma régua na economia da saúde que quase ninguém fora do setor conhece. Ela responde a uma pergunta desconfortável: quanto um sistema de saúde precisa gastar para entregar a alguém um ano a mais de vida com saúde? Estudo publicado em 2023 na Lancet Global Health calculou esse valor para 174 países. No Brasil, US$ 8.462.

A régua nasceu para uma finalidade nobre e chata: decidir se um tratamento novo vale o que custa, já que dinheiro em saúde é escasso e alguém precisa escolher onde ele entra. Mas ela funciona também na direção contrária. Se dá para calcular quanta vida um real compra, dá para calcular quanta vida um real desperdiçado deixa de comprar.

Faça a conta comigo. Um ano de vida saudável custa US$ 8.462. Cada morte precoce evitada devolve à pessoa uns 30 anos. Logo, evitar uma morte prematura no Brasil custa perto de R$ 1,4 milhão. Guarde esse número.

Agora olhe para o outro lado. A saúde brasileira joga fora, todo ano, algo próximo de R$ 160 bilhões, um quinto de tudo que o país gasta para cuidar de gente. Esse desperdício mora no processo. São sistemas que não conversam entre si dentro do mesmo prédio, conta que sai errada e volta, autorização que demora dez dias, material consumido que nunca chega ao registro, time inteiro contratado para conferir o trabalho de outro time.

Nos hospitais privados associados à Anahp, 17% de tudo que foi faturado voltou como recusa de pagamento em 2025, o maior nível já registrado. Tudo isso é rotina, acontece todo dia, em todo hospital, e justamente por ser rotina nunca vira notícia. Divida um número pelo outro. Se esse dinheiro virasse cuidado, ele poderia evitar mais de 100 mil mortes prematuras por ano.

Os bancos já passaram por isso. Durante décadas eles trataram tecnologia como área de apoio, até descobrirem que o núcleo do negócio era tecnologia, sob pena de desaparecerem. O varejo aprendeu a mesma lição, com prejuízo. A saúde chegou nesse limiar agora, e chega em desvantagem: nos 20 maiores hospitais do Brasil, a média de gente dedicada a engenharia e tecnologia é de 4% do quadro. Um banco desse porte com 4% de engenheiros teria quebrado há 20 anos.

Eu sei como esse texto soa. Falar de eficiência ao lado de quem cuida de gente parece frio, e a palavra desperdício, dita por alguém que nunca vestiu jaleco, soa como cobrança. A tensão é legítima e eu conheço a resposta que ela merece. Ninguém no hospital acorda querendo perder dinheiro. As pessoas que trabalham em faturamento, auditoria e contas médicas são, na média, competentes e exaustas, e passam o dia inteiro apagando incêndio numa arquitetura que ninguém desenhou de propósito. É a arquitetura que precisa mudar.

E arquitetura se muda. Essa é a única boa notícia dessa conta inteira: ela descreve uma escolha, e escolha se refaz. Cada real que volta para o caixa de um hospital vira leito, vira equipamento, vira gente contratada para ficar na beira do leito.

Hospitais eficientes salvam mais vidas. Quem torna um hospital eficiente também está salvando vidas, só que num lugar onde ninguém filma, sem nome no prontuário e sem agradecimento de nenhuma família. Já passou da hora de essa conta ser feita em voz alta.

SILVIO FRISON é cofundador e CEO da Rivio.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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