Novo (ex-Novo Nordisk) aguarda licitação para retomar fornecimento de insulina humana ao SUS
Farmacêutica dinamarquesa investe R$ 6,4 bilhões na expansão da fábrica de Montes Claros (MG), que também produz canetas emagrecedoras
Novo Nordisk aguarda a abertura de licitação do Ministério da Saúde para retomar o fornecimento de insulina humana ao SUS (Sistema Único de Saúde), após uma ruptura no abastecimento em 2024. A farmacêutica dinamarquesa, que agora usa apenas o nome Novo após um rebranding global, está expandindo a capacidade produtiva da fábrica de Montes Claros (MG) para atender à crescente demanda por insulina no Brasil e no mundo. A ampliação também contempla a fabricação de medicamentos para obesidade, mercado que apresenta forte crescimento no país. O Saúde Insider esteve na fábrica para observar e detalhar os investimentos de R$ 6,4 bilhões anunciados pela companhia. O compromisso da empresa é produzir até 125 milhões de unidades de insulina humana NPH e Regular no período de 2026 a 2028.
A companhia é fabricante do Ozempic, cujo princípio ativo (semaglutida) teve a patente expirada em março, e aposta na diversificação de portfólio para enfrentar a concorrência. Em 2025, a empresa reportou US$ 48 bilhões em vendas, 6,4% a mais do que no ano anterior e um pouco mais que o dobro de 2021. O lucro líquido foi de US$ 15,9 bilhões, 1,4% superior ao de 2024. Os valores foram convertidos de coroa dinamarquesa para dólar, no câmbio do dia 4 de setembro.
A Novo Nordisk era a principal fornecedora de insulina humana ao sistema público até 2024, quando um cenário de desabastecimento global do medicamento fez com que a empresa direcionasse estoques para outros mercados. O diretor de Assuntos Corporativos e Comunicação da Novo Nordisk Brasil, Daniel Flentø, afirmou que, inicialmente, a companhia atenderia metade do volume esperado no país. “Tivemos que entrar em vários lugares, por isso não conseguimos atender toda a demanda do SUS”, disse o executivo dinamarquês. Com o problema dois anos atrás, a farmacêutica fez um acordo com o Ministério da Saúde e antecipou a entrega naquele momento, fornecendo em seis meses pouco mais de 90% do montante anual previsto.
China e Índia. Desde então, a empresa diminuiu os volumes fornecidos, negociando aditivos a contratos regulares já firmados e participando de pregões de insulina análoga de ação rápida, uma versão modificada da insulina humana que age mais rapidamente no organismo, mas com custo maior e comprada em menor quantidade pelo SUS. Com a ausência de outros fabricantes nacionais capazes de suprir os volumes dos pregões regulares, o Ministério da Saúde recorreu a compras emergenciais diretas, que permitem participação de empresas sem registro na Anvisa. Boa parte desse fornecimento é feito por companhias que importam insulina, principalmente da China e da Índia.
Flentø disse que essa dinâmica traz um risco logístico. “No atual cenário geopolítico, com o fechamento do Estreito de Ormuz, não gera fornecimento muito garantido”, afirmou o diretor. Neste ano, o Ministério da Saúde deu indicativos de retomar as contratações regulares. Em 2 de junho, a pasta realizou audiência pública visando futura licitação para a aquisição de 79 milhões de doses de insulina humana regular e NPH, excluindo empresas sem registro. Desse total, 68 milhões são tubetes de 3 mililitros, utilizados em canetas aplicadoras reutilizáveis.
O executivo da Novo Nordisk afirmou que a empresa esperava que o edital já estivesse publicado. “Como a audiência aconteceu em 2 de junho, nossa expectativa era que o pregão já tivesse saído”, disse, durante evento realizado na fábrica da Novo Nordisk em Montes Claros (MG), em 27 de agosto. Um dos motivos da preocupação da fabricante é que parte da capacidade da planta está bloqueada para o atendimento do SUS, mas existe procura de outros países, com a demanda global crescente e gargalos na oferta.
Expansão. O cenário, tanto brasileiro quanto de procuras internacionais, motivou a expansão na capacidade produtiva da unidade brasileira, de acordo com o diretor de Produção da fábrica de Montes Claros da Novo Nordisk, Robison Luiz Morais. “Sabemos que a demanda cresce. Não podemos esperar ter uma crise para aumentar a produção”, disse. Inaugurada em 2007, a fábrica é responsável pela produção de 12% da insulina mundial e por 25% da produção global da Novo Nordisk. Flentø justificou o investimento e a capacidade de produção de 125 milhões de unidades de insulina humana (de 2026 a 2028) afirmando que poucas empresas habilitadas pela Anvisa têm capacidade de atender a demanda do SUS. “É um volume muito alto. Nenhum outro país tem uma compra centralizada desse tamanho.”
De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), o número de pessoas vivendo com diabetes no mundo avançou de 200 milhões em 1990 para 830 milhões em 2022. A IDF (Federação Internacional de Diabetes) estima que somente entre os adultos (20 a 79 anos) aproximadamente 589 milhões são diabéticos. A entidade projeta que o número deve aumentar para 853 milhões em 2050. No Brasil, são 16,6 milhões de adultos com diabetes, segundo o Atlas Global do Diabetes 2025, publicado pela IDF. O país, sétimo maior do mundo em população, é o sexto em número de casos da doença.
Segundo Morais, a nova capacidade permite não só a fabricação de insulinas, mas também de medicamentos injetáveis para obesidade. Linhas de produção podem ser adaptadas para diferentes produtos, incluindo medicamentos para obesidade, como Wegovy e Ozempic. Levantamento da empresa de pesquisa Scanntech aponta que o uso de medicamentos à base de GLP-1 cresceu 244% no acumulado do primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A análise indica que um dos fatores para a aceleração foi a entrada de produtos comercializados com valores abaixo do praticado pelas marcas de referência até então. As vendas online de canetinhas em geral movimentaram R$ 6,1 bilhões no primeiro semestre deste ano, segundo o relatório Da Compra à Confiança – Panorama do E-Commerce Brasileiro no Primeiro Semestre de 2026, elaborado pela Confi, por meio da Neotrust e da Aftersale, em parceria com o E-Commerce Brasil.
Flentø afirmou que a expansão da planta não foi motivada por esse cenário, mas que ele exigiu novas estratégias. Entre elas, uma parceria com a Eurofarma, firmada em 2025, para a distribuição exclusiva de uma nova marca de semaglutida semanal injetável para o tratamento da obesidade (Poviztra). “Lançamos marcas antes mesmo da chegada de concorrentes.” Outra iniciativa ocorreu em 1 de setembro, quando a Novo Nordisk anunciou o relançamento da plataforma própria de venda online de medicamentos para diabetes tipo 2, sobrepeso e obesidade.
Na avaliação de Flentø, embora exista crescimento na demanda em todo o mundo, existe uma urgência maior no Brasil, com a entrada de novos concorrentes. Segundo ele, seria interessante para a empresa fornecer canetas emagrecedoras ao SUS. Em junho, a companhia protocolou junto à Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) uma nova proposta para a incorporação de Wegovy. O pleito, que inclui desconto de 59% para o governo, ainda não recebeu parecer. No ano passado, outra proposta foi rejeitada pelo órgão, em razão do alto impacto financeiro estimado.
Questões essenciais
A Novo Nordisk vai voltar a fornecer insulina humana ao SUS?
A Novo Nordisk aguarda nova licitação do Ministério da Saúde para ampliar ou retomar o fornecimento regular de insulina humana NPH e Regular ao SUS. A companhia afirma que parte de sua capacidade produtiva está reservada para atender ao sistema público.
Quanto a Novo Nordisk está investindo na fábrica de Montes Claros (MG)?
A farmacêutica anunciou investimento de R$ 6,4 bilhões na expansão da unidade de Montes Claros, em Minas Gerais, para aumentar a capacidade de fabricação de tratamentos injetáveis para diabetes, obesidade e outras doenças crônicas.
Quantas pessoas vivem com diabetes no mundo?
A OMS estima 830 milhões de pessoas com diabetes em 2022. A Federação Internacional de Diabetes, no recorte apenas da população adulta (entre 20 e 79 anos), estima 589 milhões e projeta que esse número chegará a 853 milhões em 2050.
