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Opinião

Artigo. “Por que acesso, e não apenas custo, define o benefício de saúde no Brasil.” Por Mark Ramsook

Mark Ramsook/Crédito de Foto: Divulgação
Mark Ramsook/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

A discussão sobre o futuro dos benefícios de saúde costuma começar pelo aumento dos custos. Novos tratamentos e uma demanda crescente por cuidado vêm pressionando empresas globalmente. Mas olhar apenas para quanto custa oferecer um plano deixa escapar uma questão importante: o papel que esse benefício desempenha não é o mesmo em todos os países. O Brasil é um caso particularmente interessante, e um caso em que o custo, sozinho, conta apenas parte da história.

O país combina sistema público universal com saúde suplementar fortemente ligada ao emprego. Segundo a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), os planos de assistência médica somavam 53,1 milhões de vínculos em julho de 2026. Desse total, 38,9 milhões estavam em planos coletivos empresariais, cerca de 73%.

Essa configuração dá ao benefício empresarial uma relevância particular na jornada de saúde e fica ainda mais evidente quando o Brasil é comparado a outros mercados. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) considera incomum a configuração do seguro privado de saúde brasileiro. Embora o SUS (Sistema Único de Saúde) esteja disponível a toda a população, quem possui plano privado tende a concentrar nele o uso dos serviços de saúde.

Em países como Reino Unido, Irlanda, Nova Zelândia, Itália e Portugal, a dinâmica é diferente. Segundo a OCDE, pessoas com seguro privado continuam recorrendo de forma geral aos sistemas públicos e utilizam a cobertura privada em situações específicas, como para obter acesso mais rápido a determinados diagnósticos ou especialistas.

No Reino Unido, estimativas do ONS (Office for National Statistics) indicam que o seguro voluntário respondeu por 2,8% dos gastos totais com saúde em 2025, enquanto o financiamento governamental representou 81,3%. Não há um modelo que possa ser simplesmente transportado de um país para outro. Sistemas de saúde refletem escolhas econômicas, regulatórias e sociais. A comparação, porém, ajuda a dimensionar o papel assumido pelas empresas brasileiras.

O acesso é parte central dessa equação. O Global Employee Health Report 2026, da Howden, mostra que 41% dos profissionais pesquisados globalmente afirmam ter pagado do próprio bolso por atendimento mesmo tendo cobertura privada. O dado chama atenção para uma diferença importante entre ter um benefício e conseguir utilizá-lo de forma adequada quando necessário. Essa lacuna é ainda mais relevante no Brasil, onde o atendimento se concentra nos planos privados e a qualidade do acesso depende diretamente de como cada plano é estruturado.

Essa configuração também muda a forma como o benefício precisa ser administrado. Quando a cobertura oferecida pelo empregador ocupa um espaço relevante na jornada de saúde, decisões sobre desenho do plano, rede de atendimento e acesso ao cuidado ganham maior importância. Conhecer apenas o custo agregado da carteira não basta. É preciso entender onde as despesas estão concentradas, quais grupos demandam maior atenção e como condições crônicas estão sendo acompanhadas.

Prevenção e uso de dados ganham valor nesse contexto. Um plano abrangente no papel também pode perder valor para o profissional se o acesso ao cuidado for difícil ou fragmentado. A qualidade do benefício depende de como a cobertura funciona quando o trabalhador efetivamente precisa utilizá-la.

A comparação internacional não oferece uma fórmula pronta, mas ajuda a enxergar uma característica brasileira que muitas vezes passa despercebida. Por aqui, administrar saúde corporativa significa gerir um benefício que ocupa espaço particularmente relevante na vida dos profissionais. Compreender essa dimensão é fundamental para responder às necessidades da população coberta e preservar a sustentabilidade dos programas no longo prazo.

MARK RAMSOOK é diretor-executivo de Soluções Globais de Crescimento da Howden Employee Benefits

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