Com M&A mais seletivo, Setter aponta saúde mental e fertilização como setores atraentes
Depois de grandes movimentações no mercado de saúde, hiato de IPOs e juros altos esfriam negociações relevantes no setor, aponta sócia da boutique especializada em fusões e aquisições. Retomada deve ocorrer em 2027
Fusões e aquisições na saúde estão em momento de desaceleração, mas o mercado deve reaquecer a partir do ano que vem. Essa é a avaliação de Judith Varandas, sócia da Setter, boutique especializada em M&A, gestão e investimentos. Segundo a especialista, acabou “a febre e a fúria” de que uma empresa vale cinco vezes a receita. “O mercado está fazendo mais conta, está mais seletivo, escolhendo melhor o que comprar, onde investir”, afirmou Judith, especialista em negócios internacionais pela Esade, da Espanha, gestão financeira pela Universidad de Belgrano, da Argentina, e MBA em finanças pela Università Bocconi, da Itália, além de formação pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa). Mas há oportunidades nas áreas de saúde mental e fertilização.
Três fatores principais explicam o arrefecimento das fusões e aquisições, segundo análise da executiva. O primeiro é que houve uma estabilização do mercado após grandes movimentos, como a incorporação da SulAmérica pela Rede D’Or e a fusão da Hapvida com o Grupo NotreDame Intermédica (GNDI). O segundo é o hiato de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) dem corporações de saúde na B3, que não ocorrem desde 2021. E o terceiro é a alta da taxa básica de juros (Selic), na casa de 14% ao ano, que afeta o caixa das empresas e desestimula investimentos. “Apesar de tudo isso, o ano passado foi o nosso terceiro melhor ano na Setter. Batemos 120% da meta”, disse Judith. A engrenagem deve voltar a girar mais forte a partir do ano que vem, passadas as eleições, que são um fator mais pontual do “receio” do mercado. “Tem muito investidor esperando passar esse momento eleitoral para fazer investimento, independentemente de [vitória da] esquerda ou direita.”
A boutique de M&A, criada em 2008, tem forte atuação na área de saúde. Das 106 transações concluídas pela empresa, 61 foram no segmento. Há ainda um histórico de 160 projetos variados no mesmo setor, nas áreas de gestão — com atuação em projetos de posicionamento estratégico, crescimento e consolidação, expansão de margem, mapeamento de contingências e governança corporativa — e investimentos, frente em que a Setter coordena e gerencia a captação de recursos junto a fundos e family offices para investir, de forma oportunística, em empresas com potencial de criação de valor. Um dos últimos trabalhos da Setter foi o assessoramento da venda da Estância Resiliência, referência em reabilitação psicossocial no Distrito Federal, para a ViV Saúde, um dos maiores players de saúde psiquiátrica do país.
A saúde mental é justamente um dos ramos da saúde em que as oportunidades têm aparecido, apesar do momento de águas calmas, segundo Judith. O outro é o de fertilização e reprodução humana. Não à toa, o fundo XP Private Equity II FIP investiu, em 2023, na criação do FertGroup, holding que possui 13 marcas de saúde reprodutiva em nove estados brasileiros e no Distrito Federal. A venda de uma das marcas para a XP, a VidaBemVinda, foi assessorada pela Setter. “É um setor muito pulverizado, mas está se consolidando com players maiores comprando pequenas clínicas”, disse Judith, ao apontar ainda wellness e longevidade como outras potenciais categorias para M&As.
Histórico de cases. Antes de fundar a Setter, boa parte do grupo de sócios formado por Judith Varandas, Bruno Geraldo Bellodi (ingressou na empresa em 2016 e entrou no quadro societário neste ano), Felipe Camargo, Flavia Pareto Conrado e Roberta de Alcantara Machado Sturaro trabalhou junto na Pátria Investimentos. Entre as primeiras investidas da gestora estava a Dasa, com alavancas de crescimento tanto via orgânica, com abertura de unidades, quanto por meio de aquisições. Após estudo de viabilidade, foram executadas 24 aquisições de laboratórios e hospitais, até a empresa fazer seu IPO, em 2004, sendo a primeira empresa de medicina diagnóstica listada na bolsa brasileira. “Quando o Pátria entrou [em 1999], faturava R$ 60 milhões, com 18 unidades em São Paulo. Quando saiu [em 2009], faturava R$ 1,5 bilhão, com 700 unidades no Brasil”, disse Judith, que fez parte do planejamento, da gestão e da execução do projeto.
Essa experiência foi decisiva para o início da Setter, a partir de 2008, quando a saúde foi a propulsora dos negócios da empresa. Uma das transações mais relevantes foi a venda da Intermédica para o fundo americano Bain Capital, que adquiriu 100% da operadora sem sequer ter um time no Brasil. Após a conclusão da negociação, a Setter ficou na cadeira de CEO provisoriamente por um período de seis meses, inclusive. A boutique seguiu com os investidores nos projetos estratégicos, financeiros e de criação de valor, ao mesmo tempo em que realizava 27 aquisições. Já como Grupo NotreDame Intermédica, houve a fusão com a Hapvida, e a Setter participou do início da integração.
Outro importante case de atuação da Setter foi a entrada na gestão do Cettro – Centro de Câncer de Brasília. “Fizemos o valuation e havia um pipeline de novos negócios. Colocamos em prática e dobramos o valor de mercado em quatro anos”, afirmou Judith. A empresa foi vendida para a gestora de private equity Alothon Group. “Seguimos no projeto e fizemos 11 aquisições de clínicas, de Porto Alegre a Manaus, em três anos.” Atualmente, as iniciativas de saúde representam 25% do faturamento da Setter.
Questões essenciais
O mercado de M&A na saúde está desacelerando?
Segundo Judith Varandas, sócia da Setter, o mercado de fusões e aquisições na saúde passa por um período de maior seletividade após grandes operações realizadas nos últimos anos, mas pode voltar a ganhar força a partir de 2027.
Quais setores da saúde são considerados atraentes para M&A?
Segundo Judith Varandas, saúde mental e fertilização e reprodução humana estão entre os segmentos que apresentam oportunidades. Ela também cita wellness e longevidade como categorias com potencial.
Por que saúde mental e fertilização atraem investidores?
Segundo a executiva, o mercado de fertilização é pulverizado e passa por um processo de consolidação, com grupos maiores adquirindo clínicas menores. A saúde mental também aparece entre os segmentos com oportunidades de consolidação.
