Da tuberculose ao diabetes, favelas enfrentam dupla carga de doenças, aponta estudo
Revisão internacional mostra como saneamento precário, insegurança alimentar, mudanças climáticas e dificuldades de acesso à saúde se relacionam com diferentes doenças
Tuberculose, diarreia e outras doenças infecciosas convivem com hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares e transtornos mentais nas favelas e em outros assentamentos informais pelo mundo. Essa sobreposição de problemas de saúde é um dos principais achados de uma revisão internacional publicada em setembro pelo Cefavela (Centro de Estudos da Favela), da UFABC (Universidade Federal do ABC). O trabalho, conduzido pelo doutor em desenvolvimento urbano pela Universidade em Oxford Edmundo Werna, reúne evidências científicas sobre como condições de moradia, saneamento, renda e acesso aos serviços de saúde estão associadas ao adoecimento dessas populações.
A pesquisa identifica o que a literatura científica chama de dupla carga de doenças: a presença simultânea de enfermidades infecciosas e não transmissíveis. O quadro é mais amplo quando são considerados problemas de saúde mental, lesões relacionadas à violência e consequências de eventos climáticos extremos. “Essas exposições sobrepostas ampliam os impactos na saúde além dos efeitos de qualquer determinante isolado”, disse Werna em sua pesquisa.
As condições de infraestrutura aparecem entre os fatores associados às doenças infecciosas. A falta de água potável, coleta de esgoto, drenagem e manejo adequado de resíduos favorece a contaminação ambiental e a proliferação de vetores, aumentando os riscos de diarreia, cólera, febre tifoide e parasitoses. Moradias superlotadas, com ventilação insuficiente e materiais de construção inadequados, também estão associadas a infecções respiratórias e maior exposição ao calor. Segundo a revisão, esses problemas podem ocorrer simultaneamente e, diante da escassez alimentar, pode ter efeitos maiores.
A comida, inclusive, é peça-chave dessa equação. A insegurança alimentar pode provocar desnutrição e deficiências de micronutrientes, especialmente entre crianças e gestantes. Ao mesmo tempo, a disponibilidade de alimentos ultraprocessados de baixo custo está associada à obesidade, ao diabetes e à hipertensão. A pesquisa relaciona a instabilidade de renda às dificuldades para manter uma alimentação adequada, procurar atendimento preventivo e dar continuidade aos tratamentos. “Doenças crônicas, por sua vez, podem comprometer a capacidade de trabalho e aumentar as despesas das famílias com saúde”, disse Werna.
Os efeitos das condições de vida também atingem a saúde mental. A revisão reúne estudos que associam violência, insegurança habitacional, discriminação, pobreza e exposição a riscos ambientais a ansiedade, depressão e sofrimento psicológico. O medo de perder a moradia ou a renda pode manter as famílias sob estresse prolongado. O pesquisador também aponta o papel das redes comunitárias, organizações locais e iniciativas de apoio mútuo na proteção da saúde, embora essas estruturas não substituam a necessidade de investimentos e serviços públicos.
As mudanças climáticas agravam parte desses problemas. Enchentes podem contaminar fontes de água, danificar moradias, interromper atividades econômicas e dificultar o deslocamento até unidades de saúde. Temperaturas mais elevadas aumentam a exposição ao estresse térmico, especialmente em habitações com pouca ventilação e proteção inadequada contra o calor. O estudo aponta que os impactos dependem das condições de cada território, da infraestrutura disponível e da capacidade de resposta dos serviços públicos. A revisão não quantifica o aumento desses riscos.
Atendimento. Mesmo quando existem unidades de saúde próximas, o atendimento pode permanecer inacessível para parte dos moradores. Custos de transporte, longas esperas, exigências administrativas, discriminação e perda de renda durante consultas estão entre os obstáculos identificados na literatura. Essas barreiras podem atrasar diagnósticos e interromper tratamentos, especialmente de doenças crônicas que exigem acompanhamento contínuo. A revisão também descreve a utilização de diferentes prestadores, incluindo serviços públicos, consultórios privados, farmácias e iniciativas comunitárias, conforme a disponibilidade de atendimento e os recursos financeiros das famílias.
Para Werna, enfrentar essas condições exige maior articulação entre políticas de saúde, habitação, saneamento, planejamento urbano e proteção social. O estudo aponta que a exclusão de assentamentos informais dos processos de planejamento e dos investimentos em infraestrutura contribui para a permanência de riscos à saúde. Entre as medidas discutidas estão melhorias habitacionais, prevenção de enchentes, ampliação da atenção primária e participação das comunidades nas decisões. A revisão defende que as intervenções considerem as necessidades de cada território e a capacidade de organização de seus moradores. Confira a íntegra do relatório da UFABC.
Questões essenciais
Quais doenças infecciosas e crônicas convivem nas favelas?
A revisão internacional do Cefavela identifica a convivência de tuberculose, diarreia e outras infecções com hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. Problemas de saúde mental e lesões também aparecem entre as condições associadas aos assentamentos informais.
O que significa dupla carga de doenças?
É a presença simultânea de doenças infecciosas e não transmissíveis em uma população. Segundo a revisão da UFABC, esses problemas podem interagir com a desnutrição, a insegurança alimentar e as condições de moradia.
Como as condições de moradia e renda afetam a saúde nas favelas?
A falta de saneamento, a superlotação e a ventilação inadequada estão associadas a riscos de doenças. A instabilidade de renda pode dificultar uma alimentação adequada e o acesso a consultas e tratamentos. O adoecimento também pode reduzir a renda familiar e aumentar as despesas com saúde.
