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Opinião

Artigo. “As desigualdades que limitam a prevenção do câncer.” Por Thais Junqueira e Pedro de Paula

Muitas vezes, só saber não basta. Políticas públicas de Estado são essenciais para que todos reconheçam riscos e tomem decisões informadas sobre o andamento e melhores condições para a própria doença

Pedro de Paula e Thais Junqueira/Crédito de Foto: Divulgação
Pedro de Paula e Thais Junqueira/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

O Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do INCA (Instituto Nacional de Câncer ). Ao mesmo tempo, evidências científicas indicam que até 40% dos casos poderiam ser evitados por meio de mudanças de comportamento e da exposição ambiental. A prevenção, porém, começa por saber que ela é possível. E essa ainda é uma barreira importante. O Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do INCA, mostra que 27% dos brasileiros não sabem que o câncer pode ser prevenido.

Também há diferenças expressivas no conhecimento sobre os fatores de risco. Enquanto 90,5% reconhecem o fumo como fator associado ao câncer, 71,3% fazem essa associação com bebidas alcoólicas, 65,6% com alimentos ultraprocessados, 54,1% com excesso de peso e 48,3% com sedentarismo. O alto reconhecimento do tabagismo não é por acaso. Décadas de campanhas, advertências nas embalagens e políticas públicas ajudaram a tornar seus riscos amplamente conhecidos. Os dados indicam, portanto, onde a comunicação em saúde ainda precisa avançar.

Mas saber não basta. Para prevenir doenças, as pessoas também precisam ter condições reais de transformar conhecimento em prática. E a intenção de mudança existe. Cerca de 45% dos brasileiros afirmam que consomem ultraprocessados e que têm tentado reduzir esse consumo; o percentual chega a quase 53% para bebidas adoçadas e 45% para embutidos. Entre quem não pratica atividade física, 39% querem começar. E quase 33% da população afirma consumir bebidas alcoólicas, mas está tentando diminuir o consumo.

A questão, então, é outra: todos têm as mesmas condições para conseguir mudar? Imagine duas pessoas que desejam adotar hábitos mais saudáveis. A primeira mora em um bairro com praças iluminadas, calçadas adequadas, feiras semanais e uma unidade básica de saúde próxima. A segunda vive em uma região sem espaços seguros para caminhar, depende de longos deslocamentos diários para trabalhar e encontra com mais facilidade alimentos ultraprocessados do que frutas e verduras a preços acessíveis. Embora ambas tenham acesso à mesma informação sobre prevenção, suas possibilidades reais de transformar esse conhecimento em prática são muito diferentes.

Situações semelhantes se repetem diariamente em todo o país. Um trabalhador que passa mais de três horas por dia no transporte público pode ter dificuldade para encontrar tempo para atividades físicas regulares. Uma família que precisa equilibrar um orçamento apertado frequentemente se depara com alimentos ultraprocessados mais baratos, práticos e disponíveis do que opções frescas e nutritivas. Nesses contextos, a escolha individual não desaparece, mas passa a ser fortemente condicionada pelo ambiente em que as pessoas vivem.

São os determinantes sociais da saúde. Renda, raça/cor, território, condições de trabalho, segurança, acesso a serviços e disponibilidade de alimentos saudáveis influenciam as oportunidades de cuidar da própria saúde. Recomendar atividade física é insuficiente onde faltam espaços públicos seguros. Incentivar uma alimentação melhor também não basta quando alimentos saudáveis pesam mais no orçamento ou são menos acessíveis.

Por isso, prevenção e promoção da saúde exigem políticas que transformem os ambientes. No Brasil, essa lógica ganhou espaço na Reforma Tributária, com a previsão do Imposto Seletivo sobre produtos fumígenos, bebidas alcoólicas e bebidas açucaradas e alíquota zero de IBS e CBS para os alimentos da Cesta Básica Nacional. A combinação traduz uma ideia de saúde e justiça fiscal: encarecer produtos que geram danos à saúde e desonerar alimentos essenciais pode ajudar a tornar escolhas saudáveis mais acessíveis.

É nesse ponto que conhecimento e políticas públicas precisam caminhar juntos. Comunicação em saúde é indispensável para que as pessoas reconheçam riscos e tomem decisões informadas. Mas responsabilizar exclusivamente o indivíduo por comportamentos condicionados pelo ambiente significa ignorar as desigualdades que moldam essas decisões.

Prevenir o câncer, portanto, exige acesso amplo e equitativo a modos de vida saudáveis, ao diagnóstico e ao tratamento, comunicação de qualidade, e políticas públicas que transformem os ambientes em que as pessoas vivem, para que as escolhas mais saudáveis aconteçam de forma mais livre e efetiva. Conhecer os riscos é fundamental, mas esse conhecimento só se transforma em saúde quando todos, independentemente de renda, raça/cor ou território, têm condições reais de adotar práticas mais saudáveis.

THAIS JUNQUEIRA é superintendente geral da Umane
PEDRO DE PAULA é vice-presidente sênior de inovação da Vital Strategies

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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