Avanço contra o câncer depende mais de acesso ao tratamento do que de novas terapias
Para a OMS, aumento de 70% nos diagnósticos deve resultar em 35 milhões de casos ao ano em 2050 e põe luz às desigualdades no acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento
O maior desafio no combate ao câncer já não é descobrir novos tratamentos, mas garantir que as terapias e estratégias de prevenção já disponíveis cheguem aos pacientes de forma oportuna e igualitária. Esse é o principal alerta do Global Status Report on Cancer 2026, divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) neste mês de julho. Segundo o documento, “o maior desafio já não é descobrir o que funciona, mas garantir que aquilo que já sabemos chegue, de forma oportuna, equitativa e sustentável, às pessoas que precisam”. A organização afirma que, na prática, são as desigualdades no acesso ao diagnóstico e ao tratamento que continuam determinando quem sobrevive à doença.
Em muitas regiões, principalmente nos países de baixa e média renda, faltam serviços de diagnóstico precoce, radioterapia, medicamentos e cuidados paliativos. A OMS destaca que “muitos cânceres podem ser curados se detectados precocemente e tratados de forma eficaz”. A diretora da IARC (Agência Internacional para Pesquisa em Câncer), Elisabete Weiderpass, afirma que a prevenção continua sendo uma das ferramentas de maior impacto para reduzir a carga global da doença, desde que seja acompanhada da ampliação do diagnóstico precoce, da triagem e do acesso ao tratamento.
Em suas redes sociais, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, fez um apelo aos governos. “O câncer é profundamente pessoal. Toca quase todos nós, com mais de 20 milhões de pessoas diagnosticadas todos os anos. Podemos mudar esta trajetória, mas isso requer uma mudança urgente para uma abordagem centrada nas pessoas na prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer.”
Previsão. O relatório estima que o número de novos casos de câncer chegará a 35 milhões por ano até 2050, um aumento de cerca de 70% em relação aos 20,6 milhões registrados em 2024. O crescimento será impulsionado pelo envelhecimento da população, pelo aumento da expectativa de vida e pela permanência de fatores de risco evitáveis. Hoje, cerca de uma em cada cinco pessoas desenvolverá câncer ao longo da vida.
A doença matou quase 10 milhões de pessoas em 2024, o equivalente a uma em cada seis mortes no mundo. Quando também são considerados familiares e cuidadores, a OMS estima que aproximadamente 92% da população será afetada direta ou indiretamente pelo câncer em algum momento. O documento destaca que apenas 12 países estão no caminho para atingir a meta global de reduzir as mortes prematuras por câncer até 2030. Ao mesmo tempo, alerta que muitos sistemas de saúde ainda não oferecem de forma adequada serviços essenciais de prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos.
Segundo a OMS, quase um quarto das mortes por câncer está associado ao tabagismo, consumo de álcool, excesso de peso, alimentação inadequada e sedentarismo. A poluição do ar também aparece entre os principais fatores de risco para o câncer de pulmão. Nos países de baixa e média renda, infecções como HPV, hepatites B e C e Helicobacter pylori continuam tendo peso expressivo na incidência da doença. O relatório estima que esses agentes respondem por cerca de 30% dos casos nesses países. A organização também chama atenção para a necessidade de fortalecer os sistemas de saúde. Segundo o relatório, muitos países ainda não incluem integralmente serviços essenciais de prevenção, rastreamento, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos em seus sistemas públicos, o que “evidencia lacunas importantes no caminho para a cobertura universal de saúde”.
Questões essenciais
Quantos casos de câncer são esperados até 2050?
A OMS estima que o número de novos diagnósticos de câncer chegará a 35 milhões por ano até 2050, ante 20,6 milhões em 2024.
Por que os casos de câncer devem aumentar até 2050?
O relatório relaciona o aumento principalmente ao crescimento e envelhecimento da população e à exposição a fatores de risco.
O acesso ao tratamento influencia a sobrevivência ao câncer?
Sim. O relatório da OMS destaca grandes desigualdades nos resultados e no acesso a prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados ao longo da trajetória da doença.
