Para lidar com bets, diretor da ABRH cobra educação financeira das empresas e políticas públicas do Ministério da Saúde
Vício em apostas chega ao RH pela área de saúde e termina no jurídico. Consultoria relata furtos internos motivados por dívidas de jogo
Para minimizar os efeitos negativos causados pelas bets na saúde ocupacional, Luiz Edmundo Rosa, diretor de saúde e bem-estar da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), sugere duas ações principais. Uma voltada às empresas privadas, outra ao governo. “O principal papel que as empresas podem fazer chama-se educação financeira”, afirmou Rosa, ao observar que já vê iniciativas nesse sentido. Mas elas têm de ser complementadas, na visão dele, com políticas públicas. “Sem isso, a gente fica enxugando gelo.”
Nas empresas, o efeito aparece em duas frentes, segundo Rosa. A primeira surge na própria folha de pagamento, quando a companhia identifica trabalhadores que perderam renda para as apostas. A segunda é na queda no poder de compra provocada pelo funcionário endividado. O protocolo que a ABRH recomenda nesse ponto é o encaminhamento ao médico da empresa ou ao serviço de saúde disponível ao colaborador.
Segundo o executivo os casos graves expõem falhas nos mecanismos de escuta e no preparo das lideranças para conversar com as equipes. “Como é que nós não vimos isso? Como é que nós não percebemos isso?”, disse, sobre a percepção dos gestores das empresas após o problema estar instaurado. O executivo afirmou “números enormes” e crescentes que envolvem a influência das casas de apostas eletrônicas sobre a renda e a saúde mental dos brasileiros.
De acordo dados do Ministério da Fazenda, são 25,2 milhões de apostadores em plataformas que estavam autorizadas a operar até o dia 25 de setembro. Nessa data, a Medida Provisória nº 1.394, da Presidência da República, proibiu totalmente a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa e cassinos online no Brasil.
Entre os apostadores, 50% estavam jogando ao menos uma vez por semana e 25% diariamente. O Ministério da Saúde registrou aproximadamente 10 mil atendimentos por jogo patológico no SUS (Sistema Único de Saúde) entre janeiro de 2018 e maio de 2025.
Em março deste ano, a pasta iniciou projeto de teleatendimento para 600 pessoas por mês e ampliou para até 100 mil atendimentos mensais dentro do aplicativo Meu SUS Digital. Cerca de 28 mil pessoas se cadastraram, e o governo destinou R$ 70 milhões à expansão. A rede de saúde mental do governo consumiu R$ 2,5 bilhões no ano passado, número que não inclui apenas apostadores, já que a rede não identifica esse público entre os demais pacientes.
A ludopatia, reconhecida sob o código 6C50 na CID-11 pela OMS (Organização Mundial da Saúde), traz desdobramentos assistenciais e financeiros, como aponta o dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”, produzido pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e pela Umane, organização de fomento à saúde pública.
Segundo o estudo, as apostas geram um custo social anual de R$ 38,8 bilhões ao país, dos quais R$ 30,6 bilhões correspondem a impactos diretos e indiretos na saúde. Esse montante específico da saúde, que corresponde a 78,8% do total, engloba gastos com tratamentos médicos, perda de qualidade de vida decorrente da depressão e impactos decorrentes de mortes por suicídio.
Dívidas e furtos. Em 2024, uma mineradora identificou furtos de peças em uma de suas unidades. Os trabalhadores envolvidos vendiam o material para pagar dívidas de jogo, e a empresa contratou a Mental Clean, consultoria de saúde mental no trabalho, para lidar com o caso. Segundo Fátima Macedo, psicóloga e fundadora da Mental Clean, episódios semelhantes se repetiram nas empresas que vieram depois. O assunto entra pela área de saúde, passa ao RH e termina no compliance e no jurídico.
O caso demora a percorrer as instâncias internas porque a dinâmica é complexa. Segundo a experiência de Fátima, a pessoa com característica de jogo compulsivo “nega para si e nega para o outro”, criando mecanismos para esconder o quanto gasta. E sustenta que “pode parar quando quiser”.
Não há faixa de renda nem de idade que delimite o grupo. O acesso pelo celular dispensa horário e deslocamento. A comparação que ela usa é com o alcoolismo, que leva de 10 a 15 anos para aparecer no ambiente de trabalho, prazo bem maior do que o observado na ludopatia.
Metade dos clientes da consultoria já pediu ações específicas sobre apostas, segundo a especialista. A resposta contratada começa pela psicoeducação, segue para o treinamento de lideranças, inclui canal confidencial de acolhimento e a restrição de acesso a plataformas nas redes e nos equipamentos corporativos.
Os casos identificados passam por triagem e por um núcleo de crise, com acompanhamento quase diário, e são encaminhados a serviço social, gestão financeira e jurídico. Sobre resultados práticos dos acompanhamentos psicológicos, ela disse ser “muito cedo para falar em taxa de sucesso”.
Questões essenciais
A proibição das bets acaba com o vício em apostas?
Não. A Medida Provisória nº 1.393, publicada em 25 de setembro de 2026, encerra a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa e dos jogos online, com sites e aplicativos fora do ar a partir de 6 de outubro. A medida alcança a oferta, e a demanda por tratamento já formada permanece.
Como o vício em apostas afeta as empresas?
Segundo as fontes ouvidas, o efeito aparece na queda de vendas provocada pelo endividamento, na perda de renda de trabalhadores e em casos de furtos internos motivados por dívidas de jogo. Em 2024, uma mineradora identificou furtos de peças em uma unidade, praticados por trabalhadores que vendiam o material para pagar dívidas.
O que as empresas podem fazer em relação ao vício em apostas entre funcionários?
As ações descritas incluem educação financeira, psicoeducação, treinamento de lideranças, canal confidencial de acolhimento e restrição de acesso a plataformas de apostas nas redes e nos equipamentos corporativos. Os casos identificados passam por triagem e acompanhamento, com encaminhamento a serviço social, gestão financeira e jurídico.
