Artigo. “O impacto das canetas emagrecedoras e a urgência do cuidado coordenado”. Por Rebeca Schvartzburd
Uma medicação pode acelerar resultados, mas nenhuma inovação substitui a necessidade de compreender o contexto de quem a utiliza
A chegada dos medicamentos ancorados em vias como GLP-1 e GIP, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, redefiniu o tratamento da obesidade. Trata-se de um avanço medicinal importante para a redução de riscos cardiovasculares e para o controle do diabetes. No entanto, a apropriação dessa tecnologia pela cultura digital subverteu o seu propósito original. Impulsionada por influenciadores e pela busca por adequação estética imediata, o que deveria ser compreendido como um recurso terapêutico, indicado dentro de uma estratégia individualizada de cuidado, passou, em muitos casos, a ser visto como uma promessa de transformação rápida.
Para se ter uma ideia, de acordo com uma pesquisa realizada no começo deste ano pelo Instituto Locomotiva, 62% dos brasileiros afirmaram conhecer alguém que fez, ou ainda faz, uso das canetas emagrecedoras. O mesmo estudo revelou também que em 1 a cada 3 domicílios (33%) há ao menos um morador que usou ou ainda usa. No final de 2025, o percentual era menor, de 26%.
Acontece que quando a busca pela perda de peso atropela a avaliação clínica, existe o risco de o medicamento ser utilizado fora do contexto necessário para garantir sua segurança e efetividade. Isso porque se uma pessoa não encontra acolhimento, orientação ou tem o seu pedido negado de forma fria, aumenta o risco de buscar soluções por conta própria. O resultado é a migração para a automedicação e para o mercado clandestino, criando uma nova camada de problemas.
Sem a retenção do paciente na jornada de cuidados, o sistema acaba financiando a consequência do descontrole: sobrecarga dos prontos-socorros, internações prolongadas, tratamentos para eventos adversos do medicamento e até intervenções cirúrgicas decorrentes do uso irresponsável do medicamento.
Além disso, o tratamento não termina na prescrição. A ciência reforça essa necessidade: dados da extensão do ensaio clínico STEP 1, destacados em uma revisão de 2025 do International Journal of Innovative Technologies in Social Science, revelaram que, um ano após a suspensão da medicação, os pacientes recuperaram em média dois terços do peso perdido. O estudo observou, no entanto, que os indivíduos que aderiram de forma mais rigorosa às recomendações de estilo de vida recuperaram menos peso, provando que a construção contínua de hábitos é um fator inegociável.
Por isso, a eficácia das canetas emagrecedoras não deveria ser usada como argumento para banalizar seu uso. E uma boa relação de cuidado precisa comportar o “não”. Hoje, vemos muitos profissionais prescrevendo essas medicações de forma indiscriminada, muitas vezes ignorando a responsabilidade clínica. Nem sempre a melhor decisão é iniciar imediatamente um medicamento. Às vezes, é preciso investigar melhor, acompanhar outras mudanças ou entender fatores que estão interferindo na saúde daquele indivíduo.
A confiança do paciente no profissional está justamente em saber que a recomendação será feita com base naquilo de que ele realmente precisa, inclusive quando a melhor resposta não é aquela que ele esperava receber. Nem sempre a melhor decisão é iniciar imediatamente um medicamento.
É nesse ponto que a ausência de um acompanhamento estruturado evidencia os problemas da fragmentação do cuidado. Quando o paciente passa por atendimentos desconectados, cada decisão tende a ser tratada como um episódio isolado. Já quando a condução do caso acontece a partir de um profissional que conhece o histórico do indivíduo e trabalha de forma integrada com outras especialidades, a indicação de um medicamento ganha continuidade e segurança assistencial.
Nesse cenário coordenado, a equipe de saúde não atua como opositora à tecnologia farmacêutica, mas busca a condição para que o uso deixe de ser apenas o desejo estético e passe a ser a constatação clínica. Quando existe uma equipe dedicada e um ambiente de escuta, o paciente tende a se sentir mais à vontade para compartilhar o que realmente está acontecendo. Essa transparência permite entender o contexto e corrigir o caminho antes que um problema se agrave.
No fim das contas, a inovação da indústria farmacêutica não opera transformações isoladas. Uma medicação pode acelerar resultados, mas nenhuma inovação substitui a necessidade de compreender o contexto de quem a utiliza. A construção de hábitos, a adaptação da rotina e o acompanhamento ao longo do tempo continuam sendo parte fundamental de uma jornada sustentável e segura. E essa transformação não é vendida em farmácias: ela demanda tempo, acolhimento clínico e a presença de profissionais qualificados.
Para o mercado de saúde suplementar, a constatação é direta: a incorporação de tecnologias de alto impacto precisa ser acompanhada por modelos capazes de coordenar seu uso. A viabilidade do sistema de saúde e a segurança real do indivíduo dependem justamente da convergência entre avanço científico e inteligência preventiva. Porque nenhuma inovação, por mais relevante que seja, substitui o julgamento clínico, o acompanhamento e o vínculo entre paciente e profissional de saúde.
REBECA SCHVARTZBURD é gerente de operações clínicas da Sami Saúde
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.
