Artigo. “Babel Digital: quando a tecnologia fala muitas línguas, o paciente precisa ser ouvido.” Por Rogério Reis
Nunca tivemos tantas tecnologias disponíveis na saúde. O problema não está na ausência de ferramentas, mas a incapacidade de fazê-las conversar
Um paciente chega à emergência com histórico de doença cardíaca. O hospital tem prontuário eletrônico e a clínica onde ele faz acompanhamento também. O laboratório que processa seus exames, idem. Os três sistemas não são interligados, e o médico plantonista que o recebe não tem acesso ao histórico clínico. O paciente, no limite das suas forças, precisa lembrar os medicamentos que usa.
Esse cenário tem nome na literatura de saúde digital: Babel Digital. A analogia com a Torre de Babel não é acidental; assim como na narrativa bíblica, a multiplicidade de línguas inviabilizou a cooperação. No ambiente digital da saúde, os resultados de sistemas fragmentados são dados dispersos e uma visão do paciente que nunca se completa. E isso não é exceção: é o cotidiano de boa parte das instituições de saúde no Brasil e no mundo.
Os dados confirmam a extensão do problema. Um estudo de pesquisadores da UnB, UFBA e Unifesp publicado em 2025 concluiu que a interoperabilidade continua sendo um dos principais entraves para sistemas de saúde verdadeiramente conectados no Brasil, com a fragmentação de dados clínicos comprometendo diretamente a coordenação do cuidado e a tomada de decisão.¹
Uma revisão sistemática internacional publicada no mesmo ano confirma que os silos de dados seguem entre as maiores barreiras globais para a troca eficiente de informações clínicas.² O McKinsey Health Institute, em relatório de março de 2025, reforça que desafios como governança fragmentada e conectividade limitada persistem nos sistemas de saúde ao redor do mundo, independentemente do nível de desenvolvimento dos países.³
Vivemos um paradoxo. Nunca tivemos tantas tecnologias disponíveis na saúde; inteligência artificial, telemedicina, prontuários eletrônicos, plataformas de monitoramento remoto. O problema não está na ausência de ferramentas, mas na incapacidade de fazê-las conversar. Hospitais, clínicas, laboratórios e operadoras adquirem sistemas distintos, desenvolvidos em épocas diferentes e com arquiteturas próprias. O resultado são informações dispersas, retrabalho para as equipes, custos desnecessários, quando novos exames são realizados por falta de histórico, por exemplo, e uma visão da jornada do paciente que permanece incompleta.
Há quem argumente que o problema é de padronização técnica, e é em parte. Mas reduzir tudo a isso é conveniente demais. O que falta, na maioria dos casos, é decisão institucional, governança de dados e disposição para abrir mão de feudos tecnológicos. A tecnologia para isso já existe. O que falta é prioridade, e o custo de adiá-la vai crescer.
A inteligência artificial, apontada como a próxima grande revolução da saúde, depende justamente dessa integração. Algoritmos só produzem análises relevantes quando têm acesso a dados consistentes, organizados e conectados.
A qualidade da inteligência gerada é diretamente proporcional à qualidade da comunicação entre os sistemas que a alimentam. Sem interoperabilidade, a IA na saúde será, na melhor das hipóteses, uma promessa cumprida pela metade. O mesmo vale para a medicina personalizada e para qualquer modelo assistencial que dependa de enxergar o paciente de forma longitudinal, e não como uma série de episódios isolados.
Um paciente com doença crônica hoje pode realizar consultas presenciais e remotas, usar aplicativos de monitoramento, acessar exames em plataformas digitais e ser atendido por diferentes instituições ao longo dos anos. Para ele, existe uma única jornada de cuidado. Para os sistemas que o assistem, essa jornada está picotada em dezenas de arquivos que não se comunicam. E construir a visão integrada desse indivíduo é condição essencial para uma assistência mais personalizada e efetiva.
Resolver a Babel Digital não é uma questão tecnológica, mas é uma decisão de gestão. Exige padrões abertos, incentivos regulatórios e, acima de tudo, liderança das próprias instituições. Acredito que os modelos mais sustentáveis serão construídos por quem tiver coragem de expor as próprias lacunas e tratar dados e integração como prioridade estratégica, não como pauta de TI.
ROGÉRIO REIS é vice-presidente de Hospitais da Rede Américas, segunda maior rede de hospitais privados do Brasil
Bibliografia
¹ Fernandez M, Pinto HA, Fernandes LMM et al. Interoperability in universal healthcare systems: insights from Brazil’s experience integrating primary and hospital health care data. Frontiers in Digital Health, 2025.
² Saberi MA, McHeick H, Adda M. From data silos to health records without borders: a systematic survey on patient-centered data interoperability. Information, v. 16, n. 2, 2025.
³ Hartenstein L, Wilson M, Bode M, Kumar P. Building interoperable healthcare systems: one size doesn’t fit all. McKinsey Health Institute, março de 2025.
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