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Opinião

Artigo. “Prontuários dispersos, tempo perdido: o que a IA já pode resolver na saúde.” Por Juliana López Pineda

"Privacidade, segurança e governança têm que estar no centro de qualquer solução, e quanto mais complexa a tarefa da IA mais importante fica a validação humana"

Juliana López Pineda, da Doctoralia Brasil e Chile/Crédito de Foto: Divulgação
Juliana López Pineda, da Doctoralia Brasil e Chile/Crédito de Foto: Divulgação Ilustração de Saúde Insider

Há alguns anos, falar em inteligência artificial na saúde parecia falar de um futuro distante. Hoje, vejo o potencial dela de um jeito mais concreto e humano: reduzir o peso das tarefas operacionais para que o médico tenha mais tempo com o paciente. Acesso rápido às informações certas, entendimento melhor da história de quem está à sua frente e, na consulta, a possibilidade de trocar a tela pelo olhar.

Essa convicção não vem só da minha experiência acompanhando como a tecnologia transforma a jornada de médicos, pacientes e instituições. Vem também de uma vivência pessoal. Meu pai, Alonso, viveu 17 anos de uma história clínica complexa: três recorrências de câncer, tratamentos, cirurgias, especialidades diferentes. Era um homem determinado, dos que atravessam situações difíceis sem deixar que a doença ocupe a vida inteira. Ao longo desses anos, sua trajetória foi registrada em mais de 100 páginas de prontuários, exames e relatórios.

Quando ele foi internado, em 2022, toda essa informação existia. O que faltava era uma forma simples de reuni-la e apresentá-la com clareza para cada profissional que precisava decidir algo. A história estava espalhada entre documentos, especialidades, momentos diferentes do cuidado. E a cada troca de equipe, o mesmo desafio quase impossível: entender, em poucos minutos, 17 anos de vida clínica de uma pessoa.

Não procuro respostas fáceis quando volto a essa lembrança. A medicina lida com limites concretos e decisões tomadas sob pressão. Mas fico pensando no que teria sido diferente se a tecnologia possibilitasse um resumo integrado do histórico: as condições anteriores, os cuidados que ele exigia, os pontos de atenção acumulados. Talvez não desse uma resposta definitiva, mas poderia ter dado contexto. E, na saúde, contexto faz diferença enorme.

É para isso que a IA serve hoje: para contribuir onde a capacidade humana esbarra em gargalos técnicos e operacionais, sem substituir quem cuida. Conectar registros produzidos por especialistas diferentes não pode depender mais unicamente da memória e do tempo do profissional, no meio de uma emergência ou de uma troca de turno, e isso é um problema de ferramenta. A IA pode organizar essa complexidade, resumir históricos extensos e apontar dados que merecem atenção.

Essa possibilidade ganha peso diante da transição demográfica em curso. Até 2050, o número de pessoas com 60 anos de idade ou mais deve chegar a 2,1 bilhões no mundo, o dobro do registrado hoje, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde). Até 2030, uma em cada seis pessoas no planeta terá 60 anos ou mais. No Brasil, em 2022, o país tinha 22,1 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população, alta de 57,4% frente a 2010, segundo o Censo Demográfico do IBGE.

Viver mais é uma conquista. Também significa acompanhar por mais tempo condições crônicas, combinar tratamentos, transitar por especialidades médicas. As histórias clínicas ficam mais longas e complexas, enquanto profissionais de saúde enfrentam, muitas vezes, consultas curtas, sobrecarga e uma pilha crescente de tarefas administrativas. Pedir que só trabalhem mais e leiam mais documentos não resolve. O caminho é ampliar a capacidade deles de lidar com essa informação.

Isso já começa a acontecer dentro do consultório. Ferramentas de documentação clínica automatizada acompanham a conversa, organizam anotações, estruturam registros, prescrições e pedidos de exame. É uma mudança operacional com efeito humano: o médico deixa de dividir atenção com a tela e se concentra no paciente. A tecnologia assume a parte repetitiva para que o profissional se dedique à parte insubstituível.

O mesmo princípio serve para a jornada inteira. Uma pessoa que sente algo diferente busca informação, tenta entender qual profissional procurar, precisa conseguir atendimento. Depois vêm exames, prescrições, retornos, muitas vezes, novos especialistas. Quando cada etapa funciona isolada, o paciente vira o principal responsável por carregar a própria história de um ponto a outro. Um sistema bem construído conecta essas etapas e garante que a informação acompanhe a pessoa: paciente orientado ao cuidado certo, médico com acesso ao contexto clínico, hospital usando a tecnologia para apoiar triagem e organizar altas.

Essa evolução exige responsabilidade. Prontuários e plataformas ainda precisam se comunicar melhor. Privacidade, segurança e governança têm que estar no centro de qualquer solução, e quanto mais complexa a tarefa da IA mais importante fica a validação humana: a tecnologia organiza informação e apoia escolhas, a decisão clínica continua sendo do profissional. Vale também resistir à tentação de empilhar ferramentas desconectadas. Cada tela ou alerta que não conversa com o fluxo real do cuidado é sobrecarga nova, não solução.

Quando penso na história do meu pai, penso em todas as informações que estavam ali, mas não conseguiam, juntas, contar a história inteira. E penso em quantos pacientes ainda chegam a uma consulta ou a uma internação carregando anos de vida clínica em documentos que ninguém vai ter tempo de ler por inteiro. É nesse espaço entre informação disponível e informação compreendida que a IA tem o que fazer.

Transformar papel disperso em contexto, tarefa repetitiva em tempo de consulta, jornada fragmentada em cuidado contínuo: isso é o que a tecnologia tem a oferecer. Cuidar de fato de quem está na sua frente, continua sendo trabalho humano.

JULIANA LÓPEZ PINEDA é country manager da Doctoralia no Brasil e no Chile. 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.

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