Artigo. “O desafio de implementar a IA na rotina das clínicas”. Por Eduardo Barros
Se a equipe continua fazendo as mesmas tarefas, se os sistemas não estão integrados ou se o paciente precisa passar pelas mesmas etapas de antes, pouco mudou na prática
A inteligência artificial já faz parte da realidade de muitas clínicas. O que ainda representa um desafio é transformar esse uso em algo que realmente faça diferença na operação. Não basta ter uma ferramenta capaz de responder pacientes, organizar informações ou executar tarefas. Se ela não estiver conectada à forma como a clínica trabalha, seu potencial fica limitado.
Os números comprovam que esse movimento já ganhou escala. A TIC Saúde 2025, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, aponta que 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros já utilizavam inteligência artificial. Entre aqueles com mais de 50 leitos, o índice chegava a 31%. E o principal uso estava justamente na organização de processos clínicos e administrativos, citado por 45% dos estabelecimentos que já utilizavam IA.
Isso mostra que a discussão deixou de ser sobre experimentar a tecnologia. As clínicas já estão encontrando aplicações para ela. O ponto que merece mais atenção, no entanto, é o que acontece depois da adoção.
Grande parte das iniciativas começam pela ferramenta. A clínica identifica uma solução interessante, coloca a tecnologia em funcionamento e espera que o ganho apareça. Só que a tecnologia, sozinha, não muda um processo. Se a equipe continua fazendo as mesmas tarefas, se os sistemas não estão integrados ou se o paciente precisa passar pelas mesmas etapas de antes, pouco mudou na prática.
Por isso, o primeiro passo deveria ser olhar e fazer uma análise da operação. Onde a equipe perde mais tempo? Quais atividades se repetem centenas de vezes durante o dia? Em quais pontos o paciente espera mais do que deveria? Que tarefas poderiam ser executadas sem a intervenção constante de um profissional?
Essas perguntas costumam levar a aplicações mais simples, mas também mais próximas de um resultado concreto. Atendimento inicial, confirmação de consultas, remarcações, recuperação de pacientes e organização de demandas são exemplos de atividades que podem consumir muitas horas da equipe sem necessariamente exigir uma decisão clínica.
Não significa que toda tarefa repetitiva deva ser automatizada, mas entender onde existe um problema que a tecnologia pode resolver melhor. Essa análise também precisa considerar o que já existe dentro da clínica. Hoje, 92% dos estabelecimentos de saúde brasileiros possuem algum sistema eletrônico para registro das informações dos pacientes, segundo a TIC Saúde 2025. Portanto, não estamos falando de operações que começam do zero. Há sistemas, dados e processos que precisam continuar funcionando quando uma nova solução é incorporada.
É aí que a integração ganha importância. Uma IA pode atender bem um paciente, mas se as informações dessa conversa não chegarem ao sistema da clínica, alguém terá de fazer esse trabalho. Uma automação pode reduzir o tempo de uma etapa, mas, se criar outra tarefa manual logo depois, o ganho será menor do que parecia no início.
Por isso, o resultado deve ser medido a partir da operação, e não apenas pelo uso da ferramenta. Quantas horas foram economizadas? O tempo de resposta mudou? Mais pacientes conseguiram concluir o agendamento? A equipe passou a dedicar menos tempo a atividades administrativas? São indicadores simples, mas ajudam a mostrar se a tecnologia está produzindo uma mudança real.
Esse cuidado se torna ainda mais importante quando falamos de saúde. A IA pode apoiar profissionais e equipes em diferentes atividades, mas existem responsabilidades que continuam sendo humanas. A Resolução CFM nº 2.454/2026, que regulamenta aspectos do uso de inteligência artificial na medicina, reforça a necessidade de governança, auditoria, monitoramento e capacitação.
Na prática, isso significa que uma clínica precisa estabelecer limites claros para o uso da tecnologia. É preciso saber quais tarefas podem ser automatizadas, quais situações exigem intervenção humana e como acompanhar o funcionamento da solução ao longo do tempo.
Também não é “obrigatório” começar com grandes projetos. Uma implementação pode partir de um único processo, desde que exista clareza sobre o problema que se pretende resolver e sobre o resultado esperado. Se funcionar, a experiência pode servir de base para outras aplicações. Essa cautela não diminui o potencial da IA, pelo contrário. Ela aumenta a chance de a tecnologia ser incorporada de maneira consistente.
O setor de saúde já passou da fase em que a inteligência artificial era tratada apenas como uma promessa. Agora, estamos diante de uma questão muito mais concreta: como fazer com que ela funcione dentro de operações que já existem, com pessoas, sistemas, regras e responsabilidades.
E esse será um dos principais desafios das clínicas nos próximos anos. Não a falta de ferramentas, mas a capacidade de escolher onde elas realmente fazem sentido e incorporá-las ao trabalho, sem perder de vista aquilo que continua sendo essencial no atendimento ao paciente.
EDUARDO BARROS é CEO e cofundador da WorkAI
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.
