Artigo. “Obesidade no autismo exige olhar além da balança”. Por Luiz Gustavo de Quadros
Pessoas autistas podem apresentar seletividade alimentar, preferência por determinados sabores e texturas, resistência a mudanças na rotina e padrões alimentares bastante restritos
Quando falamos em obesidade, é comum que a conversa comece e termine com o peso. Em pessoas no espectro autista, essa abordagem pode ser ainda mais limitada. O número indicado na balança é importante, mas não explica sozinho por que aquele ganho de peso aconteceu, quais fatores estão envolvidos e, principalmente, qual estratégia de tratamento pode fazer sentido para cada paciente.
Essa discussão ganha relevância à medida que aumentam os dados sobre a presença simultânea de autismo e excesso de peso. O Censo Demográfico 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chegou a 2,6%. O levantamento representa um avanço importante, mas ainda não permite saber quantas dessas pessoas também vivem com sobrepeso ou obesidade.
Fora do Brasil, porém, já existem dados que ajudam a dimensionar o problema. Uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu 95 estudos estimou prevalência de 21,8% de obesidade e 19,8% de sobrepeso entre pessoas com transtorno do espectro autista. Entre adultos autistas, a estimativa de obesidade chegou a 31,3%. Esses números não podem ser simplesmente transportados para a população brasileira, mas mostram que o tema merece atenção clínica.
O primeiro ponto é entender que não existe uma única explicação para o ganho de peso. Pessoas autistas podem apresentar seletividade alimentar, preferência por determinados sabores e texturas, resistência a mudanças na rotina e padrões alimentares bastante restritos. Uma orientação nutricional que desconsidere essas características pode funcionar no papel e fracassar na prática.
Imagine, por exemplo, uma criança que aceita apenas alguns alimentos e que passa a receber uma recomendação baseada justamente na substituição desses itens. A orientação pode ser nutricionalmente adequada, mas dificilmente será sustentável se ignorar a relação daquela criança com a alimentação. O tratamento precisa partir da realidade do paciente e avançar de maneira possível.
Outro aspecto é a medicação. Alguns medicamentos utilizados no acompanhamento de condições associadas ao autismo podem ter efeitos sobre o peso e o apetite. Isso não significa que devam ser interrompidos ou substituídos por iniciativa própria. Significa que o peso precisa fazer parte do acompanhamento clínico e que médico, paciente e família devem discutir os possíveis efeitos das diferentes estratégias terapêuticas.
Também precisamos olhar para a atividade física de maneira individualizada. Para algumas pessoas autistas, determinadas atividades podem ser desconfortáveis por questões sensoriais, dificuldade de adaptação a ambientes ou preferência por rotinas específicas. A recomendação de simplesmente “fazer exercício” não resolve esse problema.
Encontrar uma atividade possível, prazerosa e compatível com as características daquele paciente pode ser mais importante do que estabelecer uma meta genérica. Movimento não deve ser encarado apenas como uma ferramenta para emagrecer. Ele participa da saúde cardiovascular, metabólica e funcional e pode fazer parte de uma estratégia de cuidado muito mais ampla.
Existe ainda uma dimensão que merece atenção: a saúde metabólica e intestinal. A obesidade está associada a alterações metabólicas e inflamatórias que precisam ser acompanhadas independentemente do diagnóstico de autismo. Por isso, quando avaliamos uma pessoa autista com obesidade, não deveríamos olhar apenas para o peso. É necessário entender alimentação, composição corporal, exames, medicamentos, rotina, sono, atividade física e as condições que podem dificultar a mudança de hábitos.
Quando as estratégias convencionais não são suficientes, entram em discussão outras possibilidades de tratamento. Medicamentos, procedimentos endoscópicos e cirurgia bariátrica podem fazer parte desse arsenal, sempre de acordo com critérios médicos e avaliação individual.
É nesse ponto que a gastroplastia endoscópica pode ser considerada para determinados pacientes. O procedimento é realizado por endoscopia, sem cortes externos, e promove redução do volume do estômago. Por preservar a anatomia digestiva, apresenta características diferentes das cirurgias bariátricas e pode representar uma alternativa para alguns perfis de pacientes.
Mas é importante evitar a ideia de que existe um procedimento específico para todas as pessoas autistas com obesidade. A indicação precisa considerar condições clínicas, comportamento alimentar, capacidade de acompanhamento, expectativas e possibilidade de adesão ao cuidado posterior. O procedimento não substitui acompanhamento nutricional, médico e comportamental.
Essa talvez seja a principal mensagem quando falamos de obesidade no autismo: não existe uma fórmula única.
O tratamento precisa considerar que o paciente está inserido em uma rotina, em uma família e em um ambiente que influenciam diretamente sua alimentação e seu comportamento. Em crianças e adolescentes, isso envolve ainda mais a participação dos pais ou responsáveis. Mudanças alimentares e de rotina precisam ser construídas gradualmente, sem transformar a refeição ou a atividade física em mais uma fonte de conflito.
Também precisamos mudar a maneira como enxergamos o próprio acompanhamento do peso. Monitorar não significa estabelecer uma cobrança permanente para emagrecer. Significa identificar precocemente mudanças que possam comprometer a saúde e agir antes que o problema se torne maior.
A obesidade é uma condição complexa e o autismo também exige uma abordagem individualizada. Quando os dois aparecem juntos, simplificar o tratamento pode significar ignorar justamente os fatores que mais interferem no resultado.
Por isso, o caminho passa por uma equipe capaz de enxergar o paciente para além do diagnóstico e da balança. Médico, nutricionista, psicólogo, profissional de educação física, terapeuta e família podem ter papéis diferentes, mas complementares.
Mais do que buscar uma resposta única para o ganho de peso, precisamos entender por que ele aconteceu, quais barreiras aquele paciente enfrenta e quais estratégias são realmente possíveis para sua realidade. É a partir dessa avaliação que conseguimos transformar o controle da obesidade em cuidado de saúde, e não apenas em uma busca por determinado número na balança.
LUIZ GUSTAVO DE QUADROS é médico, professor, mestre e doutor em Cirurgia.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição editorial do Saúde Insider.
