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Negócios

Aplicativo sueco mais eficaz que camisinha, Natural Cycles chega ao Brasil para criar nova categoria de contraceptivos

Com aportes de US$ 100 milhões, startup tem 6 milhões de assinaturas no mundo e vê país como seu maior potencial de crescimento

Ilustração de Saúde Insider
Ilustração de Saúde Insider Crédito: Magnific

Primeiro, tornar-se conhecida. Depois, ganhar mercado para criar uma nova categoria no setor de contraceptivos no Brasil, a de dispositivos digitais. Esse é o caminho planejado pela Natural Cycles, startup sueca recém-chegada ao Brasil após se popularizar na Europa e nos Estados Unidos. O terreno brasileiro, com 16,6 milhões de mulheres na faixa dos 20 aos 45 anos, que representa 16% da população feminina do país, segundo o IBGE, é o público-alvo para crescimento da empresa, que possui 6 milhões de assinaturas globais.

Os números locais não são revelados, mas Taurã Figueiredo, country manager da Natural Cycles no Brasil, mostra-se otimista com os resultados desde janeiro, quando a companhia iniciou de fato a operação por aqui, sendo ele o funcionário número um contratado. “Nosso desempenho está acima das expectativas que tínhamos planejado”, disse o executivo, contatado por um headhunter via LinkedIn. “Algumas metas do ano já foram superadas”, afirmou Figueiredo, que acumula passagens por empresas como Dr. Consulta, Livance (consultórios inteligentes), Minha Vida (site de saúde e beleza), Mira Educação e EmCasa (imobiliária).

De acordo com a plataforma NKP M&A Insights, especializada em dados de fusões, aquisições e investimentos para fundos de private equity, a Natural Cycles projetava faturamento de US$ 100 milhões em 2025. A empresa captou cerca de US$ 100 milhões desde 2013, quando foi criada, com investidores como Bonnier Capital, EQT Ventures, Headline, Heartcore Capital, Point72 Ventures, Lauxera Capital Partners e Samsung Ventures.

A Natural Cycles está de olho em um mercado de contraceptivos que movimentou US$ 340 milhões no Brasil em 2024, segundo a consultoria Decisions Advisors. A expectativa é de que o setor alcance US$ 923 milhões até 2035, a uma taxa de crescimento anual composto de 9,5%. De acordo com a consultoria, entre os principais fatores impulsionadores do segmento estão justamente os avanços na tecnologia anticoncepcional, além da conscientização sobre planejamento familiar e saúde sexual, a implementação de campanhas educativas e o aumento da população de mulheres trabalhadoras.

Figueiredo diz que o foco ainda está muito na construção desse público. “Criar credibilidade e trazer o método como alternativa válida para o mercado.” Essa estratégia vale tanto para acessar a consumidora direta, com ações de marketing digital, quanto por meio da aproximação da classe médica, com participação em feiras e congressos do setor e relacionamento com ginecologistas.

Como funciona. A Natural Cycles possui um algoritmo proprietário que usa a temperatura corporal da mulher para identificar a ovulação e prever dias férteis e não férteis. A elevação da temperatura mensurada é mínima, de 0,25°C a 0,45°C, provocada pelo aumento da progesterona, mas suficiente para indicar o início da ovulação. Com os dados da temperatura inseridos no aplicativo NC°, seja de forma manual pelas mulheres ou pela captação de wearables como Apple Watch, Oura Ring ou a pulseira própria da startup, entra em ação o algoritmo, que possui uma base de 20 milhões de ciclos analisados e cerca de 30 estudos científicos publicados e revisados. Na tela do celular, aparecem os dias férteis da mulher.

Desde 2017, o método tem a Certificação CE na Europa (que indica cumprimento das leis de saúde na região) e, em 2018, foi o primeiro aplicativo contraceptivo aprovado pela FDA (Food and Drug Administration), agência federal de saúde dos Estados Unidos, o que o torna um dispositivo médico regulamentado. Está liberado pela Anvisa desde março do ano passado.

É ciência que está no DNA da empresa e no gene profissional da fundadora da Natural Cycles, a sueca Elina Berglund Scherwitzl, uma física de partículas que buscou uma forma mais natural de gerenciar sua fertilidade após remover seu implante contraceptivo. Como não encontrou uma opção confiável e não hormonal no mercado, decidiu criá-la.

Elina já havia contribuído para a descoberta premiada com o Nobel da partícula Bóson de Higgs, crucial para a compreensão do funcionamento do universo, no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), maior laboratório de física de partículas do mundo. Atualmente, são 150 funcionários na Natural Cycles, sendo 13 cientistas PhDs que estudam a saúde feminina. Elina administra a companhia ao lado de seu marido e cofundador, o físico austríaco Raoul Scherwitzl.

Mais eficiente que camisinha? Em comparação com os principais métodos de contracepção, é mais eficiente em seu uso típico do que a camisinha (87% de eficácia), tem a mesma eficiência da pílula anticoncepcional (93%) e está um pouco abaixo do DIU (99%). A vantagem do Natural Cycles, segundo Figueiredo, é a não interferência no corpo da mulher, seja de maneira hormonal ou invasiva, que pode gerar efeitos colaterais em questões físicas e psicológicas. “Observamos no Brasil um avanço na preocupação com o uso menor de hormônios [medicamentos]”, disse o executivo.

Nesse campo também entram pacientes de outras enfermidades, como câncer, que são impossibilitadas de acumular tratamentos hormonais. Há ainda as que não usam nenhum tipo de contraceptivo. No Brasil, de acordo com pesquisa do instituto Ipsos encomendada pela Bayer, 25% das mulheres declararam não utilizar atualmente nenhum método. Além disso, 59% recorrem ao ambiente digital como principal fonte de informação sobre saúde e 62% das entrevistadas entre 18 e 29 anos têm a internet como primeira referência.

É uma disputa direta com a indústria farmacêutica, pois o algoritmo da startup concorre diretamente com as pílulas, DIU e preservativos. Esse é um lado da história. O outro é que a indústria de medicamentos e dispositivos é parceira da Natural Cycles em algumas iniciativas. Uma delas está em testes, que já estão em execução no mercado nacional, de remédios que previnem a enxaqueca no período próximo à ovulação. Ingeridos no dia e horário certos, aumenta a eficácia.

Um movimento que pode evoluir para um marketplace? Nos Estados Unidos já existe o NC Shop, uma loja dentro do aplicativo. Porém, a comercialização de produtos é um pouco restrita pela regulação imposta a muitos itens. Essa linha de negócio deve ser implementada no Brasil, mas não agora, em que os esforços são para a empresa tornar-se conhecida e, em seguida, ganhar mercado.

Questões essenciais

O que é o Natural Cycles?

O Natural Cycles é um aplicativo contraceptivo que utiliza dados de temperatura corporal e um algoritmo para determinar diariamente o status de fertilidade da usuária.

Qual é a eficácia do Natural Cycles?

Segundo a empresa, o Natural Cycles tem eficácia de 93% no uso típico e 98% no uso perfeito.

O Natural Cycles é aprovado pela Anvisa?

O Natural Cycles recebeu aprovação da Anvisa no Brasil em março de 2025 como dispositivo médico para contracepção. Desde 2017, o método tem a Certificação CE na Europa (que indica cumprimento das leis de saúde na região) e, em 2018, foi o primeiro aplicativo contraceptivo aprovado pela FDA (Food and Drug Administration), agência federal de saúde do governo dos Estados Unidos, o que o torna um dispositivo médico regulamentado.

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