Malária no Brasil cai ao menor nível desde 1978, mas país fecha o ano 74% acima da meta de redução dos casos
São registrados 118 mil casos autóctones. Plano do Ministério da Saúde previa menos de 68 mil e estabelece redução para 14 mil até 2030
Mesmo com o menor número de casos de malária desde 1978, o Brasil encerrou 2025 distante da trajetória estabelecida pelo próprio governo para eliminar a doença. Foram registrados 118.037 casos contraídos no território nacional, queda de 15% em relação ao ano anterior, mas o PNEM (Plano Nacional de Eliminação da Malária), lançado em 2022, previa chegar ao fim de 2025 com menos de 68 mil casos. O resultado ficou cerca de 50 mil notificações, ou 74%, acima desse limite. As mortes recuaram 30%, de 56 para 39, enquanto os casos da forma grave da doença diminuíram 30,7%. A distância aumenta quando considerada a próxima etapa do plano. Até 2030, o país pretende registrar menos de 14 mil casos autóctones por ano, zerar as mortes e interromper a transmissão da malária causada pelo Plasmodium falciparum.
A eliminação completa da transmissão está prevista para 2035. Para sair dos 118.037 casos contabilizados em 2025 e chegar abaixo do limite definido para 2030, o número de infecções terá de cair 88%. O desafio está concentrado geograficamente. Dados preliminares do Ministério da Saúde mostram que 99,9% dos casos autóctones registrados em 2025 ocorreram na região amazônica, embora todos os estados endêmicos tenham apresentado redução. A queda também alcançou áreas consideradas prioritárias: nos territórios indígenas, os registros passaram de 60.134 (2024) para 48.095 (2025), recuo de 20%. Nas áreas de garimpo, diminuíram 22,2%, de 15.770 para 12.265. Nas áreas rurais, a redução foi de 16%, para 39.168 casos.
Uma das apostas do SUS (Sistema Único de Saúde) para acelerar essa redução é a tafenoquina, incorporada em 2023 e oferecida desde 2024 para parte dos pacientes com malária causada por Plasmodium vivax. Até junho deste ano, mais de 33,7 mil pessoas haviam recebido o medicamento, das quais 3.920 em DSEIs (Distritos Sanitários Especiais Indígenas). Desde março, o SUS também oferece uma formulação para crianças a partir de 2 anos e peso mínimo de 10 quilos. Até junho, 1.446 crianças e adolescentes haviam sido tratados. A versão pediátrica já estava disponível em 54 municípios e 17 DSEIs.
A principal diferença da tafenoquina é a possibilidade de administrar em dose única o tratamento destinado a eliminar formas do parasita que permanecem no fígado e podem provocar novas manifestações da doença. Seu uso, porém, depende de uma estrutura adicional de diagnóstico. Antes da administração, é obrigatória a realização do teste quantitativo da G6PD (glicose-6-fosfato desidrogenase). Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 5% da população da Amazônia brasileira apresenta baixa atividade dessa enzima, condição que pode elevar o risco de reação a medicamentos como tafenoquina e primaquina.
A implantação da estratégia exigiu, por isso, expansão simultânea da capacidade de testagem e treinamento. Em 2025, o Ministério da Saúde informou ter capacitado 4.960 profissionais para a testagem de G6PD e o uso da tafenoquina em 168 municípios dos nove estados endêmicos, além de 16 DSEIs. No mesmo período, houve aumento de 28% no número de exames realizados com testes rápidos para diagnóstico de malária na Amazônia. Os dados mostram que a incorporação do medicamento depende não apenas de sua distribuição, mas também da disponibilidade de diagnóstico nos territórios de maior transmissão.
Yanomami. O território Yanomami é um dos exemplos dessa combinação de medidas. O DSEI local registrou 1.515 pessoas tratadas com tafenoquina e queda de 61,9% nas recaídas entre março e junho de 2026, em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre janeiro e julho, os casos diminuíram 55%, de 17 mil para 7,6 mil. O resultado não pode ser atribuído apenas ao novo medicamento: no primeiro semestre deste ano foram realizados 145 mil exames para malária no território, aumento de 85,4% em relação a 2023. Foram confirmados 6,8 mil casos no período e nenhuma morte pela doença.
Fora da Amazônia, a quantidade de casos é muito menor, mas o diagnóstico tardio acrescenta outro risco. Uma nota técnica do Ministério da Saúde apontou que, em 2022, a letalidade da malária na região extra-amazônica foi 62 vezes maior que na Amazônia. A pasta relaciona essa diferença principalmente à demora na suspeita da doença, que pode inicialmente ser confundida com outras infecções febris. O documento também alerta para a circulação de pessoas infectadas entre áreas de garimpo e regiões sem transmissão habitual, com possibilidade de introdução do parasita em locais onde existe o mosquito vetor.
A eliminação da malária também integra o programa Brasil Saudável, que reúne 14 ministérios e estabelece metas para eliminar ou reduzir 11 doenças e cinco infecções de transmissão vertical como problemas de saúde pública até 2030. O país já recebeu certificação pela eliminação da filariose linfática, em 2024, e da transmissão vertical do HIV, em 2025. Para a malária, entretanto, o primeiro marco quantitativo do plano nacional terminou abaixo do previsto: mesmo depois da queda de 2025, o número de casos precisará ser reduzido para aproximadamente um oitavo do patamar atual nos próximos cinco anos para que a meta de 2030 seja alcançada.
Questões essenciais
Quantos casos de malária o Brasil registrou em 2025?
O Brasil registrou 118.037 casos de malária contraídos no território nacional em 2025, queda de 15% em relação a 2024 e o menor número desde 1978.
Qual era a meta do Brasil para a malária em 2025?
O Plano Nacional de Eliminação da Malária previa menos de 68 mil casos até o fim de 2025. Com 118.037 registros, o país ficou cerca de 74% acima desse limite.
Qual é a meta do Brasil para eliminar a malária?
Até 2030, o país pretende registrar menos de 14 mil casos autóctones por ano, zerar as mortes e interromper a transmissão por Plasmodium falciparum. A eliminação completa está prevista para 2035.
