Brasil investe R$ 210 milhões em três frentes de RNA para vacinas e terapias nacionais
Fiocruz leva vacina brasileira de mRNA à fase clínica, enquanto UFMG inicia centro dedicado à tecnologia e Butantan estrutura unidade de desenvolvimento e produção
O Brasil começou a transformar projetos de pesquisa com RNA em uma infraestrutura nacional para desenvolver vacinas e terapias. O investimento é de R$ 210 milhões. Os recursos federais estão financiando três frentes – na Fiocruz, no Instituto Butantan e na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A frente mais avançada, da Fiocruz, já levou uma vacina brasileira de RNA mensageiro contra a Covid-19 à fase clínica.
O RNA mensageiro, ou mRNA, é uma molécula que leva às células instruções temporárias para produzir determinada proteína. Assim, ela estimula uma resposta do organismo. A tecnologia funciona como uma plataforma: ao mudar essa instrução, os pesquisadores podem adaptar a mesma estrutura para desenvolver produtos contra diferentes doenças.
Do valor total do investimento federal, R$ 77 milhões (um terço) são destinados à estrutura de RNA mensageiro de Bio-Manguinhos/Fiocruz. Outros R$ 73 milhões, ao Instituto Butantan. E R$ 60 milhões (28,5%) ao Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA da UFMG. Segundo o Ministério da Saúde, os recursos financiam desde infraestrutura de pesquisa e produção até desenvolvimento de produtos e estudos clínicos.
A estratégia integra o fortalecimento do Ceis (Complexo Econômico-Industrial da Saúde) e busca ampliar a capacidade do país de desenvolver tecnologias consideradas estratégicas para o SUS, reduzindo a dependência de fornecedores e plataformas mantidas no exterior. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, os recursos fazem parte do desenvolvimento sanitário que garantirá “soberania também na produção de vacina”, disse, durante anúncio do Ceis.
Na Fiocruz, essa infraestrutura já produziu o candidato em estágio mais avançado. A Anvisa autorizou, em 20 de agosto, o estudo de Fase 1 da vacina contra a Covid-19 desenvolvida por Bio-Manguinhos a partir de sua plataforma própria de mRNA. O ensaio deverá incluir 90 adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, e avaliará principalmente segurança e capacidade de provocar resposta imunológica. Os participantes serão recrutados no Rio de Janeiro e acompanhados individualmente por seis meses. O início do recrutamento é previsto para o primeiro trimestre de 2027.
Plataforma. Segundo a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), é a primeira vacina de mRNA desenvolvida na região América Latina & Caribe a chegar à etapa de ensaios clínicos. O produto é resultado de uma plataforma construída com apoio do programa de transferência de tecnologia de mRNA da Organização Mundial da Saúde, da Opas e do Medicines Patent Pool, entre outros parceiros. Isso significa que a capacidade brasileira não foi desenvolvida de forma isolada, mas passou a incorporar no país conhecimento, estrutura produtiva e condições para desenvolver novos produtos a partir da mesma base tecnológica.
É justamente essa possibilidade de reutilização que diferencia uma plataforma de um projeto voltado a uma única vacina. No mRNA, os pesquisadores podem explorar a mesma estrutura tecnológica para diferentes agentes infecciosos e, em alguns casos, aplicações terapêuticas. A plataforma da Fiocruz, por exemplo, poderá servir de base para pesquisas relacionadas a outras doenças infecciosas, ameaças com potencial pandêmico e terapias. No conjunto das três instituições, o portfólio nacional já se estende muito além da Covid-19.
As três frentes nacionais mostram, no entanto, que a capacidade ainda não está no mesmo estágio em todas as instituições. A Fiocruz já dispõe de uma candidata autorizada a entrar em testes clínicos e de uma planta piloto de mRNA. A UFMG acaba de estruturar um centro dedicado à tecnologia e mantém projetos em desenvolvimento pré-clínico. O paulista Butantan, por sua vez, usa os recursos federais para implantar uma unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro, inicialmente direcionada a imunizantes contra Covid-19 e raiva.
No Butantan, a estratégia combina desenvolvimento de capacidade própria e parcerias tecnológicas. O instituto mantém uma PDP (Parceria para o Desenvolvimento Produtivo) de vacina contra Covid-19 baseada em RNA mensageiro, com a Moderna, e também participa do desenvolvimento de uma vacina contra raiva com RNA autorreplicante, modalidade na qual a molécula é desenhada para ampliar sua própria mensagem dentro das células. A implantação da nova unidade busca criar estrutura que possa ser utilizada em diferentes projetos.
O avanço das três frentes não significa que todos esses produtos estejam próximos de chegar ao SUS. Entre uma candidata experimental e um medicamento ou vacina disponível à população há etapas pré-clínicas, ensaios em humanos, avaliação regulatória e, posteriormente, decisões sobre produção e eventual incorporação ao sistema público. O movimento em curso é anterior: construir no país capacidade para percorrer essas etapas sem depender integralmente de tecnologias desenvolvidas no exterior.
Resposta do organismo. O RNA mensageiro, ou mRNA, é uma molécula que leva às células instruções temporárias para produzir determinada proteína e, assim, estimular uma resposta do organismo. A tecnologia funciona como uma plataforma: ao mudar essa instrução, os pesquisadores podem adaptar a mesma estrutura para desenvolver produtos contra diferentes doenças. Do valor total, R$ 77 milhões são destinados à estrutura de RNA mensageiro de Bio-Manguinhos/Fiocruz; R$ 73 milhões ao Instituto Butantan e R$ 60 milhões ao Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA da UFMG, o CTV-RNA.
Segundo o Ministério da Saúde, os recursos financiam desde infraestrutura de pesquisa e produção até desenvolvimento de produtos e estudos clínicos. A estratégia integra o fortalecimento do Ceis (Complexo Econômico-Industrial da Saúde) e busca ampliar a capacidade do país de desenvolver tecnologias consideradas estratégicas para o SUS, reduzindo a dependência de fornecedores e plataformas mantidas no exterior. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, os recursos fazem parte do desenvolvimento sanitário que garantirá “soberania também na produção de vacina”, disse, durante anúncio do CEIS.
Na Fiocruz, essa infraestrutura já produziu o candidato em estágio mais avançado. A Anvisa autorizou em 20 de agosto o estudo de Fase 1 da vacina contra a Covid-19 desenvolvida por Bio-Manguinhos a partir de sua plataforma própria de mRNA. O ensaio deverá incluir 90 adultos saudáveis, entre 18 e 59 anos, e avaliará principalmente segurança e capacidade de provocar resposta imunológica. Os participantes serão recrutados no Rio de Janeiro e acompanhados individualmente por seis meses. O início do recrutamento é previsto para o primeiro trimestre de 2027.
Ensaios clínicos. A candidata da Fiocruz também dá dimensão ao avanço tecnológico alcançado no país. Segundo a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), é a primeira vacina de mRNA desenvolvida na América Latina e no Caribe a chegar à etapa de ensaios clínicos. O produto é resultado de uma plataforma construída com apoio do programa de transferência de tecnologia de mRNA da Organização Mundial da Saúde, da OPAS e do Medicines Patent Pool, entre outros parceiros. Isso significa que a capacidade brasileira não foi desenvolvida de forma isolada, mas passou a incorporar no país conhecimento, estrutura produtiva e condições para desenvolver novos produtos a partir da mesma base tecnológica.
É justamente essa possibilidade de reutilização que diferencia uma plataforma de um projeto voltado a uma única vacina. No mRNA, os pesquisadores podem explorar a mesma estrutura tecnológica para diferentes agentes infecciosos e, em alguns casos, aplicações terapêuticas. A plataforma da Fiocruz, por exemplo, poderá servir de base para pesquisas relacionadas a outras doenças infecciosas, ameaças com potencial pandêmico e terapias. No conjunto das três instituições, o portfólio nacional já se estende muito além da Covid-19.
A expansão mais recente ocorreu em Minas Gerais. Oficializado em 31 de agosto, o CTV-RNA da UFMG é o primeiro Centro de Competência apoiado pela Embrapii dedicado especificamente a terapias e vacinas com RNA e mRNA. Coordenado pelo CTVacinas. Entre as frentes citadas pelo Ministério da Saúde estão projetos de vacinas e outras estratégias baseadas em RNA para malária, dengue, chikungunya, doença de Chagas e leishmaniose. A UFMG afirma já possuir uma vacina de RNA em estágio relativamente avançado contra malária e outra frente dedicada à dengue.
Três estágios. As três frentes mostram, no entanto, que a capacidade nacional ainda não está no mesmo estágio em todas as instituições. A Fiocruz já dispõe de uma candidata autorizada a entrar em testes clínicos e de uma planta piloto de mRNA que, segundo o Ministério da Saúde, possui certificação de Boas Práticas de Fabricação. A UFMG acaba de estruturar um centro dedicado à tecnologia e mantém projetos em desenvolvimento pré-clínico. O Butantan, por sua vez, usa os recursos federais para implantar uma unidade de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro, inicialmente direcionada a imunizantes contra Covid-19 e raiva.
No Butantan, a estratégia combina desenvolvimento de capacidade própria e parcerias tecnológicas. O instituto mantém uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo de vacina contra Covid-19 baseada em RNA mensageiro com a Moderna e também participa do desenvolvimento de uma vacina contra raiva com RNA autorreplicante, modalidade na qual a molécula é desenhada para ampliar sua própria mensagem dentro das células. A implantação da nova unidade busca criar uma estrutura que possa ser utilizada em diferentes projetos, em vez de manter a instituição dependente de uma linha produtiva vinculada a um único imunizante.
O avanço das três frentes não significa que todos esses produtos estejam próximos de chegar ao SUS. Entre uma candidata experimental e um medicamento ou vacina disponível à população há etapas pré-clínicas, ensaios em humanos, avaliação regulatória e, posteriormente, decisões sobre produção e eventual incorporação ao sistema público. O movimento em curso é anterior: construir no país capacidade para percorrer essas etapas sem depender integralmente de tecnologias desenvolvidas no exterior. A vacina da Fiocruz mostra que uma das plataformas já atravessou essa fronteira. UFMG e Butantan ampliam a aposta de que a mesma infraestrutura possa produzir uma carteira maior de vacinas e terapias nacionais.
Questões essenciais
Quanto o Brasil investe em tecnologia de RNA mensageiro?
O investimento federal citado na reportagem soma R$ 210 milhões. São R$ 77 milhões para a Fiocruz, R$ 73 milhões para o Instituto Butantan e R$ 60 milhões para o CTV-RNA da UFMG.
Qual vacina brasileira de mRNA está mais avançada?
A candidata contra a Covid-19 desenvolvida por Bio-Manguinhos/Fiocruz é a mais avançada. A Anvisa já autorizou seu estudo clínico de Fase 1, que deverá incluir 90 adultos.
Para quais doenças o Brasil pesquisa vacinas e terapias com RNA?
As três instituições trabalham com projetos que incluem Covid-19, malária, dengue, chikungunya, raiva e outras aplicações terapêuticas baseadas em RNA.
