Pular para o conteúdo

Economia

Planos de saúde desperdiçam R$ 130 milhões por ano em cuidados pré-operatórios sem efeito no desfecho

Pesquisa com 27.678 cirurgias de baixo risco associa excesso de cuidados pré-operatórios a maior gasto sem melhora mensurável nos desfechos clínicos

Crédito de Foto: Magnific
Crédito de Foto: Magnific Ilustração de Saúde Insider

Planos de saúde desperdiçaram pelo menos R$ 130 milhões em consultas e exames pré-operatórios de baixo valor, em 2025, que não alteraram o resultado clínico. A estimativa é apontada em um estudo brasileiro publicado na Revista Internacional de Qualidade em Saúde, da Oxford Academic. Segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde), no ano passado foram feitas 678.930 cirurgias de baixo risco pagas pelas operadoras. Os parâmetros da pesquisa indicam que, para esse volume, foram gastos R$ 260 milhões em procedimentos pré-operatórios, dos quais metade poderia ser cortada sem prejuízo clínico.

A pesquisa foi elaborada pelos professores e médicos de instituições brasileiras e portuguesas Josiane França John, Ana Paula Beck da Silva Etges, Daniel Sganzerla, João Marques-Gomes, Marcelo Miglioranza e Carisi Anne Polanczyk. Avaliou 27.678 cirurgias, com custos pré-operatórios de R$ 10,88 milhões. De acordo com o estudo, excluindo serviços sem benefício clínico mensurável, haveria uma redução de 50% nos serviços potencialmente desnecessários, o que poderia gerar uma economia de R$ 5,44 milhões.

Convertido em atendimentos, esse valor pagaria 1.325 cirurgias de hérnia inguinal, 906 remoções de vesícula por videolaparoscopia, 2.370 vasectomias ou 1.108 salpingectomias laparoscópicas. Em média, foram R$ 391,09 aplicados em procedimentos antes das intervenções cirúrgicas. Esse valor, multiplicado pelas 678.930 cirurgias de baixo risco realizadas pelos planos de saúde em 2025, resulta em aproximadamente R$ 260 milhões em custos totais. Levando-se em consideração a conclusão da pesquisa, de que metade dos serviços é “potencialmente desnecessária”, chega-se a R$ 130 milhões desperdiçados ao ano. O valor pode ser ainda mais alto, já que a sondagem foi feita entre 2018 e 2023.

Segundo Ana Paula Beck da Silva Etges, cofundadora da PEV Health e uma das autoras do estudo, embora expressivo, o desperdício não demonstra benefícios para nenhum player do ecossistema de saúde. Na avaliação da pesquisadora, todo o sistema perde. O paciente perde tempo e é exposto a exames sem benefício comprovado; o serviço de saúde deixa de atender mais pessoas; e a fonte pagadora arca com um custo que não se converte em resultado clínico. “Todas as partes saem perdendo nessa abordagem”, afirmou.

Resultados. Entre os pacientes que fizeram algum exame pré-operatório e os que não fizeram, a ida ao pronto-socorro em 30 dias foi de 5,7% e 5,2%, respectivamente. A reinternação ficou em 0,9% nos dois grupos, e não houve uma única morte nas 27.678 cirurgias. A proporção ficou praticamente estável nas três especialidades avaliadas: urologia, ginecologia e aparelho digestivo. O Brasil realiza aproximadamente 1.860 cirurgias de baixo risco por dia apenas nos tipos analisados. “Valores pequenos [de gastos em reais] multiplicados por esse volume viram somas relevantes rapidamente”, disse Etges. Segundo ela, a intenção não é reduzir o orçamento da saúde, e sim realocar recursos para atendimentos que ampliam o acesso.

O estudo identificou uma relação direta entre os dois volumes. Cada consulta pré-operatória adicional gerou um aumento de 72% na chance de o paciente realizar pelo menos um exame. Etges disse que parte do fenômeno vem de fatores culturais e da falta de questionamento sobre protocolos já estabelecidos e que há evidências internacionais, sobretudo em oncologia, de que médicos com menos tempo de experiência tendem a pedir mais exames do que os mais experientes.

É a primeira vez que a medição de cuidados de baixo valor é aplicada em larga escala no Brasil. O método já é consolidado nos Estados Unidos e em países europeus por meio do movimento Choosing Wisely, campanha internacional iniciada em 2012 pela ABIM Foundation para ajudar médicos e pacientes a conversarem sobre exames, tratamentos e procedimentos desnecessários.

Questões essenciais

Quanto os planos de saúde podem gastar com exames e consultas pré-operatórios de baixo valor?

Parâmetros do estudo estimam cerca de R$ 130 milhões por ano em gastos potencialmente evitáveis. O cálculo aplica o custo médio observado na pesquisa ao volume de procedimentos selecionados realizados pela saúde suplementar em 2025.

Exames pré-operatórios melhoraram os resultados das cirurgias analisadas?

O estudo não encontrou benefício clínico mensurável associado ao elevado uso de cuidados pré-operatórios na população de baixo risco analisada. Na amostra de 27.678 procedimentos, as idas ao pronto-socorro e reinternações foram pouco frequentes e não houve mortes.

O que são cuidados de baixo valor em saúde?

São serviços que apresentam pouco ou nenhum benefício clínico esperado em determinadas circunstâncias e podem consumir recursos ou expor pacientes a intervenções desnecessárias. No estudo brasileiro, diretrizes clínicas e recomendações do Choosing Wisely foram utilizadas como referência para identificar esses cuidados.

Mais lidas

Mais em Economia