Tarifaço de Trump põe 80% das exportações de instrumentos ópticos e médico-cirúrgicos na faixa de 37,5%
Segmento movimentou US$ 388,4 milhões em 2024, e os EUA seguem como principal mercado dos dispositivos médicos brasileiros
O tarifaço dos Estados Unidos colocou 80,2% das exportações brasileiras enquadradas no capítulo de instrumentos de óptica e médico-cirúrgicos na faixa de sobretaxa adicional de 37,5%, segundo estimativa da Amcham Brasil. A categoria inclui equipamentos e aparelhos médico-hospitalares e, segundo dados da plataforma Comex Stat, foi responsável por US$ 386 milhões em exportações para o mercado americano em 2025. Entre janeiro e julho deste ano, antes de as taxas entrarem em vigor, as vendas somaram outros US$ 245 milhões.
No caso da saúde, a barreira tarifária se soma a um desafio logístico: trocar o destino de um produto médico-hospitalar não depende apenas de encontrar outro comprador. Equipamentos e dispositivos precisam cumprir exigências de registro, certificação e aprovação próprias de cada mercado, processo que pode exigir adaptações e levar tempo. “A indústria não consegue redirecionar suas vendas de forma rápida para outros mercados”, afirmou Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde).
Silveira Filho afirmou que a exposição aos Estados Unidos também está relacionada à escala de produção. “O setor de tecnologia médica opera com cadeias globais altamente integradas e dependentes de volume”, afirmou. Segundo o presidente-executivo da Abimed, algumas empresas concentram no mercado americano parcela relevante da produção de determinadas linhas. A entidade informou que mantém interlocução com os Ministérios da Saúde, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e das Relações Exteriores em busca de alternativas para preservar a competitividade da indústria brasileira.
A cobrança de 37,5% resulta da combinação de duas medidas adotadas pelo governo de Donald Trump. Uma sobretaxa de 25%, decorrente de investigação específica contra o Brasil pela Seção 301 da Lei de Comércio americana, entrou em vigor em 22 de julho. Dois dias depois, outra investigação pela Seção 301, relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas, acrescentou 12,5% a produtos brasileiros que ficaram fora das exceções. Quando as duas decisões alcançam o mesmo item, as sobretaxas são cumulativas. Segundo o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras de todos os segmentos serão atingidas pelo tarifaço.
A decisão norte-americana, tomada pela USITC (Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos) preservou exceções para diversos medicamentos, ingredientes farmacêuticos e vacinas. No processo que antecedeu a medida, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) registrou manifestações do setor de equipamentos médicos em defesa de exceções. Segundo o órgão americano, representantes argumentaram que a sobreposição de tarifas poderia aumentar a complexidade e provocar efeitos não pretendidos sobre o segmento. Traduzindo: isso vai impactar preços nos EUA. Entre janeiro e julho, as vendas aos Estados Unidos passaram de US$ 235,2 milhões (2025) para US$ 245,1 milhões (2026), alta nominal de 4,2%. Na análise anual, a categoria exportou US$ 350 milhões em 2024. No ano passado, foram exportados US$ 386 milhões, alta de 10%.
Brasil e Estados Unidos retomaram no fim de agosto as negociações sobre as duas medidas tarifárias. No último dia do mês, Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, reuniram-se virtualmente com o nome à frente do USTR, Jamieson Greer, representante comercial americano. Segundo nota conjunta dos dois ministérios, o objetivo foi avançar nas discussões sobre as decisões tomadas com base na Seção 301. Novas reuniões foram acertadas, mas até agora não houve anúncio de redução das tarifas.
Novos mercados. Enquanto o principal mercado externo ficou mais caro para parte da indústria, uma nova condição comercial começou a valer em outro destino. Desde 1 de setembro, uma lista de dispositivos médicos brasileiros passou a entrar no Egito com tarifa de importação zero. A medida corresponde à etapa final do cronograma de redução previsto no acordo de livre comércio entre Mercosul e Egito, em vigor desde 2017. Entre os produtos beneficiados estão autoclaves, curativos, eletrocardiógrafos, equipamentos de reanimação, mesas de operação e termômetros clínicos.
O mercado egípcio ainda tem dimensão muito inferior à dos Estados Unidos, mas já ocupa espaço nas vendas externas da indústria. Em 2025, o Egito importou US$ 2,5 milhões em dispositivos médicos brasileiros e foi o terceiro principal destino do setor na África. A área médico-hospitalar respondeu por 71% das exportações ao país. Para a Abimo, a retirada das tarifas pode melhorar a competitividade dos produtos nacionais e ampliar o uso do Egito como porta de entrada para outros mercados africanos.
Questões essenciais
Qual é a tarifa dos EUA sobre produtos brasileiros?
Determinados produtos podem acumular duas sobretaxas adicionais, de 25% e 12,5%, totalizando 37,5%. A incidência depende da classificação do produto e das listas de exceção.
As tarifas atingem dispositivos médicos brasileiros?
Sim. Parte dos dispositivos, equipamentos e insumos médicos ficou fora das exceções e pode ser alcançada pelas novas sobretaxas.
Medicamentos genéricos já têm tarifa de 100% nos EUA?
Não. Donald Trump anunciou a manutenção temporária da tarifa zero e a intenção de aplicar 100% a partir de agosto de 2028, com elevação posterior. A implementação depende de atos oficiais.
