Gastos em saúde no Brasil não se traduzem em expectativa de vida, diz diretora médica da AWS
País destina 9,7% do PIB à saúde, patamar próximo à média da OCDE, mas ainda gasta menos por habitante. Executiva americana defende maior foco em prevenção e uso de tecnologia
O investimento feito em saúde no Brasil não se traduziu em aumento da expectativa de vida da população. Essa é a avaliação da americana Angela Shippy, diretora médica executiva sênior da AWS (Amazon Web Services), que esteve recentemente em um evento em São Paulo. “Estamos gastando tanto nos estágios posteriores para manejar doenças crônicas, em vez de atuar na prevenção”, disse a especialista. “E não estamos obtendo os desfechos e resultados que desejamos.” Os números, porém, mostram um quadro de estabilidade entre recursos e longevidade.
Angela apresentou dados do Banco Mundial para embasar seu argumento. O Brasil destina à saúde 9,7% do PIB (Produto Interno Bruto), equivalente a R$ 1,2 trilhão dos R$ 12,7 trilhões gerados de riqueza no país em 2025. O patamar é próximo à média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 9,2%, conforme o Banco Mundial. Em 2019, o montante nacional era de 9,6% do PIB.
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos em 2024, ante 76,2 anos registrados em 2019, antes da crise sanitária de Covid-19. Ou seja, tanto o percentual de investimento em saúde quanto a expectativa de vida praticamente mantiveram o patamar nos últimos sete anos. Apenas durante a pandemia, em 2021, a longevidade do brasileiro previsivelmente caiu para 72,8 anos.
O gasto trilionário do Brasil em saúde fica abaixo da média da OCDE quando apresentados os números per capita. Foram US$ 1,7 mil por pessoa aportados no país em 2022, contra US$ 5,3 mil da média do bloco, segundo a organização. O financiamento no Brasil também é mais concentrado no setor privado do que em qualquer outro país da OCDE, com 45% dos gastos vindos de fonte pública ou seguro compulsório em 2022. Os 55% restantes saem diretamente do bolso das famílias em procedimentos particulares ou dos planos de saúde privados. É a maior fatia privada entre os países da OCDE.
Além da análise mais abrangente do setor, Shippy disse que a AWS pode ajudar hospitais a desenvolver diretrizes e protocolos com base em dados. “Mas não vamos remover a autonomia do profissional de saúde quando está lidando com uma questão específica”, afirmou a médica. O modelo de negócio apresentado por ela reserva à tecnologia o papel de reduzir tarefas administrativas e fornecer informação, mantendo o médico como decisor final diante do paciente.
Health AI e ambient listening foram algumas das soluções citadas pela especialista e que englobam um conjunto maior de produtos de saúde da AWS. A lista inclui a Amazon Pharmacy, a rede de supermercados Whole Foods, a tecnologia de checkout automático Just Walk Out e o assistente de voz Alexa+, utilizado por hospitais e entidades assistenciais para conectar idosos a familiares e equipes de apoio.
Um case divulgado por Angela foi o uso do dispositivo Echo Show pela Cruz Vermelha, na Espanha, para chamadas, lembretes de medicação e pedidos de música para aplacar a solidão. Segundo ela, as ferramentas voltadas para equipamentos de saúde seguem o mesmo princípio de atendimento usado no comércio eletrônico da Amazon. “Ser obcecado pelos clientes”, disse, ao citar o mantra da gigante do varejo, dona da AWS. “Estamos na prática da medicina”, afirmou, ao apresentar um agente de inteligência artificial que responde a dúvidas médicas simples, diretamente no aplicativo, e uma ferramenta que transcreve consultas automaticamente para reduzir o tempo gasto em prontuário. Segundo a executiva, médicos gastam de duas a três horas por dia preenchendo prontuários.
Questões essenciais
Quanto o Brasil gasta em saúde em relação ao PIB?
Dados internacionais colocam o gasto brasileiro em saúde próximo de 10% do PIB, patamar semelhante à média da OCDE.
Quanto o Brasil gasta em saúde por habitante?
Em 2022, o Brasil gastou cerca de US$ 1,7 mil por habitante, ajustados pela paridade do poder de compra. É menos de um terço dos US$ 5,3 mil da média da OCDE.
Qual é a expectativa de vida no Brasil?
A matéria utiliza a série revisada do IBGE, segundo a qual a expectativa de vida era de 76,2 anos em 2019. Caiu para 72,8 anos, em 2021, durante a pandemia e posteriormente voltou a subir, para 76,6 anos.
