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“Meningite não lê Diário Oficial.” Epidemia causou pânico em São Paulo nos anos 1970

Os anos 1970 ensinaram lições importantes para o Brasil de hoje, mas uma delas ainda é pouco lembrada: quando há uma crise na saúde, o primeiro passo é sempre alertar a população

Crédito de Foto: Divulgação/Arquivo Nacional
Crédito de Foto: Divulgação/Arquivo Nacional Ilustração de Saúde Insider

Em 1970, o município de São Paulo tinha 5,9 milhões de habitantes, metade da população atual (11,9 milhões, segundo o IBGE). A economia brasileira ainda crescia no ritmo do “milagre”, a dois dígitos anuais. Na política, o governo controlava tudo com mão pesada, ainda mais depois do Ato Institucional número 5 (AI-5), baixado no final de 1968. E foi esse viés autoritário que contribuiu para que, na primeira metade dos anos 1970, São Paulo vivesse momentos de pânico com uma epidemia de meningite que se espalhou por toda a cidade, região por região. Enquanto a bactéria circulava livremente, o governo central barrou como pôde a circulação de informações. “A primeira coisa que a gente aprendeu com isso é que a meningite não lê Diário Oficial”, disse o epidemiologista José Cássio de Moraes. “Ela vai ocorrendo. O problema só é resolvido quando é exposto à população.” Aquela foi a terceira e mais grave epidemia de meningite em São Paulo, com estimadas 1,6 mil mortes.

Mas o que se viu àquela época foi exatamente o contrário: o problema foi escondido da população. Pelo menos até 1974, quando houve a troca de guarda, ou de general, na Presidência da República: saiu o linha-dura Emílio Garrastazu Médici, entrou Ernesto Geisel, que iniciaria um lento e truncado processo de abertura política. Até então, havia determinações – veladas ou explícitas – contra a divulgação de dados sobre a meningite. Segundo os professores José Cássio de Moraes e Rita Barradas Barata, ambos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e autores de livro sobre o tema, o boletim diário da Secretaria de Estado da Saúde “era enviado regularmente ao Serviço Nacional de Informações, o SNI, que o entregava ao presidente Geisel pessoalmente, para seu parecer”. Foi apenas em 1974, já sob novo comando, que o governo criou a Comissão Nacional para o Controle da Meningite. E aprovou uma já tardia campanha de vacinação. “Houve participação grande, dado o pânico da população”, diz Moraes.

Radiogramas de 1972 obtidos pelo pesquisador Lucas Pedretti também mostram o então diretor da Polícia Federal, Moacyr Coelho, proibindo explicitamente “divulgação de dados numéricos, gráficos e estatísticos sobre meningite”. Reportagem publicada em 2020 pela BBC (e atualizada no ano seguinte) conta que a repórter Eliane Cantanhêde, que trabalhava na revista semanal Veja, conseguiu entrevista exclusiva com o novo ministro da Saúde, o sanitarista Paulo de Almeida Machado (1916-1991), em 1974. Ele teria admitido a existência de uma epidemia no Brasil. Mas a entrevista não chegou a ser publicada. Entre outros possíveis motivos, porque não havia vacinas suficientes para a população.

Déficit. Despacho do ministro Machado com o presidente Geisel mostram que, internamente, o governo se preocupava com o assunto. E havia a questão das vacinas. Em 7 de março de 1975, por exemplo, meningite era o segundo item da reunião, após “remanejamento no escalão superior” do ministério. O relato sobre São Paulo era de que continuava com mais de 100 casos por dia. Mas estavam suspensos todos os programas até que fossem obtidas 10 milhões de doses para início da vacinação na Grande São Paulo e na Baixada Santista. Só que havia um problema, segundo o ministro: “Descobriu-se a existência de um grande déficit de ped-O-Jets”. Esse era o nome dos “revólveres” usados na vacinação, que de fato acionavam um gatilho. Segundo o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, as pistolas “foram projetadas e desenvolvidas por médicos militares norte-americanos” e permitiam vacinar mil pessoas por hora.

Houve ainda quem reclamasse que a mídia, ao divulgar informações, tentava “desacreditar” as autoridades. Mas elas sofriam desgaste, diz o professor Moraes, “porque não cumpriam seu papel de transmitir a informação de maneira correta”. Como o país estava na época do milagre econômico, “teoricamente haveria recursos para reduzir o sofrimento da população”. Ensaio da professora Rita publicado em 1988 na Revista de Saúde Pública, da USP, mostra que incidência de casos na capital paulista saltou de 1,90 (a cada 100 mil habitantes) no período 1960/1969 para 169,1 em 1974 – quase 90 vezes mais. E com expressivas variações: de 103,7 na região central a 192,7 na periferia paulistana. Alguns desses dados seriam revisados duas décadas depois.

Em O Livro da Meningite – Uma Doença sob a Luz da Cidade (Editora Segmento Farma, 2004), de Rita, Moraes e da roteirista Cristina Fonseca, os autores afirmam que a taxa de incidência de 1970 a 1977 foi de 13/100 mil) no distrito da Aclimação (área central) a 101,3 em Vila Nova Cachoeirinha (Zona Norte). A epidemia começou ainda em maio de 1971, em Santo Amaro, populoso distrito da Zona Sul, e se espalhou pela região durante três anos, até chegar a Parelheiros, extremo sul da cidade e uma área basicamente rural. Em novembro daquele ano, a meningite chegava à Zona Leste, começando pelo distrito operário de São Miguel Paulista, e terminando na Penha, quase dois anos depois. Em junho de 1972, foi a vez da Zona Norte, com Santana e Tucuruvi. Mais dois anos, a meningite completava sua incursão, agora na Zona Oeste, primeiro na Lapa. A região central foi atingida a partir de setembro de 1973. “A gravidade da epidemia a partir do inverno de 1974 impediu que as autoridades continuassem negando sua existência”, afirmam ainda os professores e autores no livro.

Recorde. São Paulo havia enfrentado outras duas epidemias, a primeira a partir de 1920. A taxa de incidência saltou de 1,1, no ano anterior, para 8,5 a cada 100 mil habitantes e atingiu o pico de 12,2/100 mil em 1923. Isso se repetiu na década de 1940: de 1,9 em 1944 para 9,2 no ano seguinte, até chegar a 24,2 em 1947, voltando a certa normalidade apenas em 1952. Até que vieram os anos 1970, quando a incidência atingiu o recorde de 179,9 casos para 100 mil habitantes. A doença voltou a crescer a partir do final dos anos 1980 – a taxa chegou a 8,25 em 1996. Mas os dados alarmantes da década de 1970 não se repetiram (veja quadro abaixo, de estudo dos professores José Cássio de Moraes e Rita Barradas Barata, publicado em 2005).

Formado em 1970, José Cássio de Moraes fez residência nos dois anos seguintes e passou a dar aulas em 1973, na Faculdade de Ciências Médicas. Ele lembra que naquele período se notou aumento de internações, no Hospital Emílio Ribas, do chamado sorogrupo C, mais comum em comunidades fechadas, como quartéis – soldados norte-americanos já eram vacinados contra a meningite C, por exemplo. “Foi uma ocorrência inusual de casos”, diz o professor. “Normalmente, o que acontecia no nosso meio era o sorogrupo A, por ser mais patogênico [produz mais casos em relação às pessoas infectadas].” São Paulo viveu uma sobreposição de ondas epidêmicas, primeiro com o sorogrupo C (1971) e depois com o A (1974), multiplicando o número de casos. Informações disponíveis à época mostram números contraditórios. Os pesquisadores estimam quase 20 mil casos de 1971 a 1976, com 1,6 mil mortes.

Os primeiros casos de meningite em São Paulo foram registrados em fevereiro de 1906, envolvendo imigrantes europeus. Daquele ano até 1913, foram 53 ocorrências esporádicas, sem caracterização de surto ou epidemia. Isso permaneceu até 1919, pelo menos, com crescimento de casos entre brasileiros, “muitos deles entre militares aquartelados”, afirmam os autores do livro. Com o desenvolvimento urbano a partir dos anos 1920, a doença meningocócica “passará a fazer parte da vida na cidade”. E facilitada por fatores como “aglomeração intradomiciliar, a habitação precária em locais sujos e mal ventilados”, trabalho extenuante e alimentação insuficiente.

Sem estrutura. A epidemia de 1974 teve cenas dramáticas, lembra o médico e professor. “Crianças em tábuas em cima da pia, colchões no chão”, diz. “O Emílio Ribas não conseguia atender. Ficou com até três vezes mais o número de leitos habituais.” Com capacidade para 400 pessoas, chegou a receber 1,2 mil. Segundos alguns relatos, muitas pessoas evitavam passar diante do hospital, com medo de serem contaminadas. “Houve necessidade de ampliação da rede de atendimento”, afirma Moraes. “O Hospital do Ipiranga, que era da Previdência e só atendia quem tinha carteira, passou a atender doentes em geral.” O mesmo aconteceu com o Hospital do Servidor Público Estadual, que foi aberto à população.

Para tentar combater a desinformação, que alimentava boatos, médicos e servidores montaram uma espécie de central telefônica – “Com a precariedade tecnológica da época”, como observa Moraes – que recebia ligações do público. Além disso, diariamente era afixado um boletim na portaria da Secretaria de Estado da Saúde, à época na avenida São Luís, na região central, mas esse esforço também esbarrava nos vetos ao noticiário. “Os dados eram disponibilizados, mas não divulgados.” O médico aponta semelhanças entre os períodos da epidemia de meningite e da recente pandemia de covid-19. “Houve a negação da existência do problema”, afirma. Apesar de certa postura negacionista nesses dois momentos, ele destaca a diferença de ambiente político. Na época da ditadura, observa Moraes, os estados eram “meros executores” das ações determinadas pelo governo central. Diferente do período da covid: “Havia maior autonomia dos estados e dos municípios. Com a implementação do SUS, a descentralização, os estados ficaram mais capacitados para atuar”.

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde vão até o primeiro semestre de 2025. De 1º de janeiro de 2010 a 30 de junho do ano passado foram notificados 377,9 mil casos suspeitos de meningite, dos quais 246,3 mil (65,2%) acabaram sendo confirmados. Nesse período, foram registradas 24 mil mortes. A média é de 15,3 mil casos e 1,5 mil óbitos por ano. Apenas na primeira metade de 2025, o número de casos confirmados somou 6,2 mil, com 781 mortes, sendo 537 (68,8%) por meningite bacteriana. O MS informou que não dispõe de dados relativos ao período da epidemia dos anos 1970.

Questões essenciais

Como aconteceu a epidemia de meningite?

Pesquisadores apontam duas "ondas" de meningite, com os sorogrupos C e A. A incidência de casos saltou de 2 a cada 100 mil habitantes (1970) para quase 180 (em 1974).

Qual foi a reação do governo?

Ainda sob a ditadura, as autoridades inicialmente tentaram negar a gravidade do problema. Parte das informações foi interditada. Em 1974, quando o número de casos explodiu, se organizou uma campanha nacional de vacinação

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