Artigo. “Por que compreender a fisiologia ganhou espaço na prática médica.” Por Alexandre Duarte
À medida que as pessoas vivem por mais tempo, cresce igualmente o período em que parte da população convive com doenças crônicas e suas consequências
O crescimento das doenças metabólicas tem colocado uma questão importante para a prática médica: até que ponto compreender os mecanismos que antecedem e acompanham essas condições pode contribuir para um cuidado mais individualizado? O envelhecimento populacional, o aumento da obesidade e o maior tempo de convivência com doenças crônicas ajudam a explicar por que esse debate ganhou relevância. Na minha avaliação, controlar sintomas e tratar doenças já instaladas continua sendo indispensável, mas aprofundar o conhecimento sobre fisiologia humana e metabolismo amplia as possibilidades de compreensão do quadro de cada paciente.
Os números mostram a dimensão do desafio. Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças crônicas não transmissíveis são responsáveis por cerca de 43 milhões de mortes por ano, o equivalente a aproximadamente 75% dos óbitos registrados no mundo. Nesse grupo estão diabetes, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e outras alterações relacionadas ao metabolismo. São condições diferentes entre si, mas que reforçam a necessidade de profissionais preparados para lidar com pacientes que muitas vezes convivem por longos períodos com doenças crônicas e demandam acompanhamento contínuo.
Durante muitos anos, grande parte da medicina concentrou esforços em controlar sintomas e administrar doenças já instaladas. Isso não diminui a importância dos tratamentos consolidados nem dos avanços construídos pela medicina ao longo das últimas décadas. O que percebo é uma procura maior por compreender também os mecanismos fisiológicos envolvidos nesses processos. Metabolismo, hormônios e adaptação celular passaram a ocupar mais espaço em discussões clínicas que buscam entender como diferentes alterações se relacionam e de que forma esse conhecimento pode contribuir para uma avaliação mais ampla do paciente.
Esse movimento não deve ser entendido como uma ruptura com a medicina baseada em evidências. Pelo contrário. A proposta é aprofundar o conhecimento científico aplicado à prática clínica, mantendo diretrizes, protocolos e tratamentos que tenham respaldo adequado. Compreender melhor o funcionamento do organismo pode ajudar o médico a interpretar exames dentro de um contexto mais amplo, relacionar sinais clínicos e considerar particularidades de cada paciente. A individualização do cuidado não significa abandonar referências consolidadas, mas utilizá-las junto a uma compreensão mais detalhada da fisiologia e do histórico clínico.
Ao longo de mais de duas décadas de atuação clínica, acompanhando milhares de pacientes e contribuindo para a formação de mais de 3 mil médicos, tenho observado interesse crescente por esse tipo de aprofundamento. A discussão passou a incorporar, com mais frequência, perguntas que vão além de qual medicamento prescrever ou qual marcador acompanhar. Muitos profissionais querem compreender melhor por que determinada alteração surgiu, quais mecanismos podem estar envolvidos e como diferentes sistemas do organismo se relacionam. Essa busca revela uma preocupação legítima com a qualidade do raciocínio clínico.
Grande parte das doenças crônicas envolve alterações fisiológicas que podem se relacionar de maneiras distintas em cada paciente. Por isso, considero importante que o médico consiga integrar informações provenientes dos exames, dos sinais clínicos, do histórico e do funcionamento metabólico e hormonal. Esse olhar não substitui o diagnóstico nem o tratamento, mas pode ampliar a compreensão sobre o quadro apresentado. Quanto maior a capacidade de relacionar essas informações, mais elementos o profissional terá para construir uma estratégia terapêutica compatível com as necessidades individuais de quem está sendo acompanhado.
A longevidade também torna essa discussão mais relevante. À medida que as pessoas vivem por mais tempo, cresce igualmente o período em que parte da população convive com doenças crônicas e suas consequências. Isso exige profissionais preparados não apenas para lidar com a doença instalada, mas também para compreender os fatores fisiológicos que acompanham o envelhecimento. Preservar saúde, autonomia e qualidade de vida ao longo dos anos passa por uma prática médica capaz de observar o paciente de maneira ampla, considerando tanto o tratamento necessário quanto o acompanhamento de sua saúde metabólica.
Não vejo oposição entre tratar a doença e compreender melhor o funcionamento do organismo. São dimensões que podem caminhar juntas. O aumento das doenças metabólicas reforça a necessidade de médicos com uma base sólida de fisiologia e capacidade de integrar informações clínicas de forma consistente. Quanto mais preparado estiver o profissional para compreender os mecanismos envolvidos em cada caso, maiores serão as condições para individualizar o cuidado e acompanhar o paciente com profundidade. Para mim, esse é um dos principais desafios da medicina diante do atual perfil das doenças crônicas.
Alexandre Duarte é médico, professor e palestrante, com atuação em fisiologia metabólica e hormonal, fundador do Grupo Avantgarde
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