Artigo. “Um novo modelo para sustentar a cadeia de medicamentos no Brasil.” Por Paulo Maia
"Há um problema estrutural que já não pode mais ser adiado: a urgência de um novo modelo de remuneração entre a indústria farmacêutica e os distribuidores"
A Reforma Tributária em curso no Brasil está prestes a redesenhar, de forma profunda, a lógica de benefícios fiscais que historicamente sustentou o equilíbrio econômico da distribuição de medicamentos especializados no país. A mudança é necessária sob a ótica da simplificação do sistema, mas expõe um problema estrutural que já não pode mais ser adiado: a urgência de um novo modelo de remuneração entre a indústria farmacêutica e os distribuidores.
A Abradimex representa as 20 maiores distribuidoras de medicamentos especializados do país, responsáveis por quase 75% do volume de produtos de alta complexidade – oncológicos, imunobiológicos, terapias raras – entregues a hospitais, clínicas e operadoras de planos de saúde. Trata-se de uma atividade que envolve controle rigoroso de temperatura, rastreabilidade de ponta a ponta, compliance regulatório e protocolos sanitários que garantem a integridade dos tratamentos até o paciente.
Durante anos, benefícios fiscais regionais ajudaram a equilibrar uma equação logística naturalmente desafiadora, compensando parcialmente os custos de operar uma cadeia de precisão em um país de dimensões continentais. Com a Reforma Tributária, essa engrenagem muda. A perspectiva de redução ou perda desses benefícios retira um amortecedor que, até hoje, ajudava a manter viável a distribuição nacional de medicamentos de alta complexidade.
O problema é que o modelo de remuneração praticado hoje entre indústria e distribuidores segue baseado, majoritariamente, no volume movimentado. É uma lógica que não incorpora os custos reais da operação tampouco os efeitos da nova estrutura tributária. Sem ajuste, os riscos são conhecidos – pressão sobre a margem dos distribuidores, menor capacidade de investimento em segurança e tecnologia e, no limite, dificuldades de acesso a medicamentos essenciais em regiões mais distantes dos grandes centros.
Não se trata de discussão corporativa entre elos de uma cadeia produtiva. Trata-se de proteger o acesso contínuo e seguro da população a tratamentos que, em muitos casos, salvam vidas. A Reforma Tributária é uma oportunidade para o setor rediscutir, de forma transparente, um modelo mais moderno e sustentável de remuneração, capaz de refletir o real valor estratégico da distribuição especializada dentro do sistema de saúde brasileiro.
O Brasil tem uma das cadeias farmacêuticas mais sofisticadas da América Latina. Preservar essa capacidade em meio à Reforma Tributária depende de uma decisão simples, mas urgente: reconhecer, no modelo de remuneração, o custo real de garantir que cada medicamento chegue ao paciente certo, no momento certo e em condições seguras.
PAULO MAIA é presidente executivo da Abradimex, entidade que representa as 20 maiores distribuidoras de medicamentos de especialidades do país.
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